segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Aimó: Uma viagem pelo mundo dos orixás

Aimó: Uma viagem pelo mundo dos orixás, Reginaldo Prandi. Ilustrações de Rimon Guimarães, 200 páginas. Selo Seguinte, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2017.

Tratar de mitologia africana não é novidade no ambiente da ficção fantástica brasileira, embora não seja também uma recorrência. De fato, há ainda uma grande defasagem entre as mitologias fundadoras de nossa cultura e as mitologias de matriz estrangeira quando falamos de ficção brasileira. A esmagadora maioria dos autores brasileiros sente-se pouco confortável com a cultura nativa até porque não a conhece: vive num ambiente aculturado, em que os valores estrangeiros, geralmente europeus, predominam. Por isso, é muito comum encontrarmos autores brasileiros no campo do fantástico trabalhando com mitologias grega, nórdica, japonesa e até nativas da região da América do Norte. É o que vemos no cinema, na tv, nos quadrinhos e na literatura dominante do gênero que, não por acaso, vêm exatamente do mercado anglo-americano que explora todas elas. Em alguns momentos, no ambiente dos autores, até se construiram discursos pró-nativos, de matizes modernistas, mas sempre houve uma forte corrente contrária que a acusava de ser patrulheira e pregar uma ficção estereotipada.
O que tem permitido o crescimento de obras literárias com temas africanistas no ambiente da ficção fantástica brasileira, além da laicização do mercado e da "explosão cambriana" na diversidade cultural, foi a cultura do "faça você mesmo" e, principalmente, a popularização dos processos editoriais. Hoje, diferentemente de todos os outros tempos, publica quem quiser e o que quiser. Com as facilidades editoriais, seja no acesso à impressão por demanda ou no crescimento da atividade literária no espaço virtual, os editores comerciais perderam boa parte do poder de determinar o que pode ou não ser publicado. Ainda há, é claro, um nó górdio na distribuição de livros reais, dominado por uma máfia voraz, mas há quem diga que as livrarias também já têm seus dias contados.
Ao longos dos últimos vinte anos, mais ou menos, formou-se um grande grupo de autores e leitores muito interessados em novidades, integrado pelo avanço da internet. Num primeiro momento, enquanto as grandes editoras ainda insistiam em ignorar esse grupo, os autores fizeram circular fanzines e livros independentes que ajudaram a crescer uma massa de leitores ao ponto de formar um mercado potencial. Timidamente,  autores ligados ao fandom começaram a aparecer nas livrarias e cada vez mais deles percebem que a ficção fantástica tem méritos suficientes para romper preconceitos.
Enfim, depois de muita luta, podemos dizer que as comportas abriram e a ficção fantástica não está mais restrita a um fandom especializado. Autores experientes, inclusive do mainstream, parecem entender as vantagens de trabalhar dentro da ficção especulativa, avançando especialmente no fantasia, que tem sido o gênero de melhor aceitação comercial.
Aimó: uma viagem pelo mundo dos orixás é um exemplo disso. Romance de autoria do sociólogo Reginaldo Prandi, autor paulista e estudioso da mitologia africana que escreveu o importante Mitologia dos orixás (2000, Companhia das Letras) e diversos outros volumes sobre cultura afro-brasileira, elabora uma fabulação singela que, de forma bastante didática, mostra como se fundamenta a religiosidade africana. Aimó não é seu primeiro romance no tema: Ifá, o adivinho (2002, Companhia das Letras), por exemplo, foi premiado em 2003 como Melhor Livro Reconto da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Acompanhamos a jornada de Aimó, menina sem memória que, aos prantos, vaga pelo Orum, o mundo dos orixás. São tantas suas lágrimas que acabam por despertar Olorum, o maior dos orixás, que, sensibilizado pelo sofrimento de Aimó, encarrega Ifá e Exu para que apresentem à menina todas as orixás para que ela possa escolher uma delas como sua mãe espiritual e então reencarnar no Aiê, o mundo dos homens, e restaurar sua linhagem. Aimó inicia assim uma peregrinação por Orum, testemunhando, a partir das narrações de Ifá, as principais histórias de cada uma das orixás femininas e, no processo, também dos orixás masculinos. As narrativas de Ifá, sempre apresentadas em uma fonte diferenciada do estilo principal do texto, também expõem ao leitor as características doutrinárias do Candomblé, religião africana que deu origem às seitas praticadas no Brasil.
As ilustrações de Rimon Guimarães, de um estilo primitivista elegante, ajudam a construir o imaginário do Orum. Cada capítulo é introduzido por um dos signos do oráculo de Ifá (o jogo de búzios), detalhados num anexo no final do volume. Também aparecem em anexos: notas do autor, um glossário com termos das línguas nagô e iorubá citados no livro, e uma relação explicativa sobre cada um dos orixás.
O romance de Prandi, como integrante do selo juvenil da Companhia das Letras, tem o objetivo de levar ao leitor jovem algum conhecimento sobre esta que é a mais viva das mitologias modernas, extremamente influente na cultura brasileira. Contudo faz muito mais do que isso: traz também ao leitor experiente da literatura fantástica um das mais expressivas e esclarecedoras explicações sobre o Candomblé, seus fundamentos e seus personagens, integrando-os com naturalidade ao imaginário coletivo, sem proselitismos. Ao lado de O palácio de Ifê (2000, L&PM) e A estrela de Iemanjá (2009, Cortez), ambos da escritora gaúcha Simone Saueressig, Aimó: uma viagem pelo mundo dos orixás forma uma tríade da melhor ficção fantástica sobre orixás já apresentadas ao leitor brasileiro, leituras obrigatórias principalmente a autores que pretendem navegar por águas tão pouco conhecidas.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Realidades cabulosas

O saite de entretenimento Leitor Cabuloso, que tem como um de seus objetivos publicar contos inéditos de ficção de gênero, investe em uma nova aventura inaugurando o selo editorial Cabuloso Livros com a antologia Realidades cabulosas, organizada por Lucas Rafael Ferraz e Rodrigo Rahamti,
 O livro reúne em 241 páginas dezenove contos publicados no saite ao longo de 2017, que trafegam em diversos gêneros, indo do realismo ao surreal – passando pela ficção científica, fantasia policial e terror – na pena dos escritores Adriana Rodrigues, Bruno Martins Soares, Daniel dos Santos Soares, Evelyn E. Postali, Fábio Fernandes, J. M. Beraldo, João Paulo Effting, Joe de Lima, Luís H. Beber, Luis Henrique da Cunha, Magdiel Araujo, Matheus Salfir, Michel Peres, Priscilla Matsumoto, Priscilla Rúbia, Rafael Peregrino, e Sonia R. R. Rodrigues, bem como dos organizadores, que não se furtaram a incluir seus próprios escritos na seleta.
O ebook está disponível nos formatos epub, mobi e pdf, e pode ser baixado gratuitamente aqui. A versão impressa pode ser adquirida no saite Clube de Autores.

Conexão Literatura 31

Está circulando o número 31 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição de 60 páginas destaca a ficção científica na literatura em um artigo de Pascale, contos de V. Evans, Rafael Botter e do editor, crônica de Míriam Santiago e resenha de Thainá Christine para o clássico Menino de engenho, de José Lins do Rego.
Nas entrevistas, Jéssica Amaral (O filho do meu noivo), Ronaldo Luiz Souza (Expedição Vera Cruz), Silvano Colli (O herdeiro supremo), Roberto Martins de Souza (Histórias e memórias de idosos analfabetos) e Carlos Velázquez (Mitologias para o século XXI).
A edição anuncia o concurso de contos "Helsing, caçadores de monstros", cujos vencedores serão publicados na edição de fevereiro da revista.
Conexão Literatura é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

Memórias pós-humanas de Quincas Borba

O escritor Sid Castro, veterano da segunda onda da ficção científica brasileira, lançou pela plataforma de autopublicação da Amazon, uma coletânea com o singelo nome de Memórias pós-humanas de Quincas Borba e outras histórias alternativas muito além do país do futuro, pelo selo autoral Imagem & Ação.
O volume tem 202 páginas e traz seis contos e noveletas de ficção científica. Diz o autor: "São distopias sociais e tecnológicas, superumanos e alienígenas, batalhas interplanetárias, viagens no tempo e no espaço e outras dimensões do Universo. Tudo sob o olhar antropofágico do chamado 'País do Futuro', de Machado de Assis a Iemanjá, vikings indígenas, um Brasil teocrático e robôs lutando por seus direitos".
O volume está a venda aqui para leitores Kindle, disponível gratuitamente para assinantes do Kindle Unlimited.

Quadrinhos antigos: 1988 a 1991

O ilustrador Silvio Ribeiro, que assinou as capas do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica de 2010 e 2012, disponibilizou a revista digital Quadrinhos antigos, com alguns de seus trabalhos realizados entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990.
A publicação tem 60 páginas e traz seis histórias de ficção científica ilustradas em preto e branco, fortemente influenciadas pelos comics americanos, com o  nostálgico sabor dos fanzines da época.
Quadrinhos antigos está disponível em formato pdf e pode ser baixado gratuitamente aqui

Os vencedores do Argos 2017

No dia 16 de dezembro de 2017, em cerimônia realizada no Campus Tijuca da Universidade Veiga de Almeida, o Clube de Leitores de Ficção Científica anunciou os vencedores do Prêmio Argos para os melhores da ficção fantástica brasileira em 2016. São eles:
Melhor Romance:
Grande vencedor: O esplendor, Alexey Dodsworth (Editora Draco);
Segundo lugar: O caminho do Louco, Alex Mandarino (Editora Avec);
Terceiro lugar: A fonte âmbar, Ana Lúcia Merege (Editora Draco).
Melhor Conto:
Grande vencedor: "O Grande Livro do Fogo", Ana Lúcia Merege, antologia Medieval: Contos de uma era fantástica (Editora Draco);
Segundo lugar: "O domo, o roubo e a guia", Roberta Spindler, antologia Dinossauros (Editora Draco);
Terceiro lugar: "A noviça escarlate", Luiz Felipe Vasques, antologia Crônica da Guerra dos Muitos Mundos (edição independente)
Melhor Antologia:
Grande vencedor: Medieval: Contos de uma era fantástica, Ana Lucia Merege & Eduardo Kasse, orgs. (Editora Draco);
Segundo lugar: Estranha Bahia, Alec Silva, Ricardo Santos & Rochett Tavares, orgs. (Editora Ex!);
Terceiro lugar: Mistérios do mal: Contos de horror, Carlos Orsi (Editora Draco).
Prêmio pelo Conjunto da Obra:
Douglas Quinta Reis.
Os agraciados foram escolhidos em votação direta entre os sócios do clube, e um vídeo da cerimônia pode ser visto aqui.
Evidencia-se o reconhecimento do CLFC ao trabalho da historiadora e escritora Ana Lúcia Merege, que há anos se dedica ao exercício literário da fantasia, bem como à organização de antologias nesse gênero. E, mais uma vez, a Editora Draco foi a grande vencedora, dominando todas as categorias.
Como é recorrente neste certame, a organização do prêmio não revelou detalhes sobre a votação, como a quantidade de votantes, pontuações totais e colocação de todos os finalistas, que poderiam permitir maiores análises quanto aos resultados. Mas a divulgação dos segundos e terceiros lugares já foi um avanço.
Felicitações do Hiperespaço a todos os ganhadores!

sábado, 23 de dezembro de 2017

A caverna cristalina

No dia 17 de dezembro de 2017, estive numa pequena feira vegana em São Caetano do Sul e lá conheci a escritora franco-brasileira Christiane de Murville, que promovia livros de sua autoria, entre os quais a série de fantasia científica A caverna cristalina, publicada em 2015 pela editora Chiado. Esse título não foi percebido pela pesquisa do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica quando de seu lançamento, devido a sabida dificuldade em identificar os livros que não chegam ao mercado e cujos autores não fazem parte ativa do fandom, como é o caso. Cristiane é doutora em Psicologia Clínica pela USP e já havia publicado trabalhos acadêmicos, mas esta série foi sua primeira incursão na ficção.
A série é formada por três volumes: Uma aventura no tempo, O desafio do labirinto e Capturados no tempo. todos bastante parrudos (416, 428 e 488 páginas, respectivamente). Conta sobre um grupo de pesquisadores que encontra uma caverna muito especial na Chapada Diamantina e, a partir de lá, espalha-se pelo tempo e pelas dimensões. A história vai além das questões puramente ligadas a tradição da ficção científica e avança sobre a filosofia oriental, a psicologia e outras correntes especulativas, construindo um painel autoral que escapa de uma classificação objetiva. Outro diferencial é que a série também teve edição na França.
Mais informações sobre estes e outros livros da autora podem ser encontrados no saite Livros & Esculturas, bem como podem ser adquiridos no saite da Editora Chiado, aqui.