domingo, 19 de março de 2017

Mistério de Deus

Há anos esperava que o meu amigo Roberto de Sousa Causo trouxesse à luz a história de Mistério de Deus, do qual fui leitor beta. A espera finalmente acabou em 2017, com o lançamento do romance pela Devir Livraria.
Mistério de Deus não é continuação nem spin-off de Um anjo de dor, romance de horror de Causo publicado em 2009 pela mesma Devir Livraria. Mas há pontos de contato entre as duas histórias, a começar pelo cenário de Sumaré, cidade no interior paulista onde o autor passou boa parte de sua juventude.
Tenho na memória, muito nitidamente, a maioria das cenas do romance, que conta a história de um ex-presidiário, leão de chácara num inferninho de Sumaré nos idos de 1991, que é levado pelas circunstâncias e por um profundo senso de justiça, a intervir nas ações de um grupo criminoso que aterroriza a região a bordo de um maverick preto envenenado. Mas não é só isso, há algo sobrenatural em torno das ações do bando, e o rapaz vai ter que levar sua determinação ao limite para tirá-los de cena.
A história tem um contorno realista que dialoga com um modelo literário que está muito em voga, como o do romance indicado ao Jabuti Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2012), um drama policial de contornos regionalistas que aos poucos assume os protocolos das histórias de horror.
Seguindo as orientações de mestres do gênero, especialmente de Stephen King, Causo não se furta a mostrar a cara do monstro no momento adequado e com toda a crueza possível. Porém, a elegância narrativa não permite que a história assuma caminhos demasiadamente apelativos, com sangue e tripas espirrando na cara do leitor, como seria de se esperar no estilo brutalista tão popular no gênero atualmente.
O livro tem 600 páginas – é provavelmente o livro mais volumoso já publicado pelo autor – e traz na capa uma ilustração agressiva de Vagner Vargas, que tem sido parceiro constante de Causo em suas publicações. 
Roberto de Sousa Causo é Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo e mantém um intensivo trabalho como autor de ficção especulativa, com diversos livros de ficção e não ficção publicados no Brasil – alguns deles premiados – e dezenas de contos publicados no exterior em países como Portugal, Argentina, França, China e Cuba. Entre seus trabalhos mais importantes, está o ensaio Ficção científica, fantasia e horror no Brasil - 1875 a 1950 (UFMG, 2003).
Mistério de Deus vai agradar vários tipos de público: desde o leitor de horror, que é óbvio, mas também os de histórias de mistério policial e principalmente os fãs de muscle cars, um público ainda pouco explorado pela literatura nacional.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Conexão Literatura 21

Está circulando o número 21 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição tem 49 páginas e destaca na capa o trabalho da escritora Thati Machado, surgida na internet que chegou ao mercado com o livro Poder extra G. Também são entrevistados na edição os escritores Cleberson Kadett (Quando o céu é o limite), Igor Feijó (Artífices da vontade), Rogério Silva (O sino), Gilmar Milezzi (Requiescat in pace: Cronicas da Cidade dos Mortos) e do roteirista e diretor de cinema Janderson Rodrigues (Mordomo da morte).
A revista ainda traz contos de Fernando Moraes, Dione M. S. Rosa e Marcelo Garbine, crônicas de Misa Ferreira e Míriam Santiago e artigo de Pedroom Lane. A coluna "Conexão Nerd" divulga o novo projeto do editor na web, a série de vídeos Curiosidades e mistérios do mundo.
A revista é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

Múltiplo 4 e 5

Em nova fase, agora virtual, Múltiplo, fanzine de quadrinhos editado por André Carim, lançou recentemente duas novas edições.
O número 4, de fevereiro de 2017, tem 80 páginas e traz um longo depoimento do mestre Júlio Shimamoto, entrevista com Alberto "Beralto" de Souza, quadrinhos de André Carim, Nei Rodrigues, Gazy Andraus, Alberto de Souza, Flavio Calazans e Clodoaldo Cruz, além de artigos, divulgação de fanzines e cartas dos leitores.
O número 5, de março, tem 84 páginas e traz uma entrevista com o ilustrador Omar Viñole, quadrinhos de  Heitor Vasconcelos, Aurélio Gomes Filho, F. Salathiel Anacleto e Rita Maria Félix, André Carim e Nei Rodrigues, Flavio Calazans, Omar, Edgard Guimarães, Juliano Facchin e Clodoaldo Cruz, Bira, Spacca e Cristina, Beralto, Fábio Barbosa e Lafaiete Nascimento, Marcelo Saravá e Bira Dantas,  duas séries de depoimentos de personalidades dos quadrinhos, divulgação de fanzines e cartas dos leitores.
As capas das duas edições trazem desenhos de Laudo Ferreira e Omar Viñole.
A publicação pode ser baixada gratuitamente aqui. As edições anteriores também estão disponíveis.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Resenha: Contos de terror

Contos de terror, Camilo Prado, org. 166 páginas Ilustrações internas e capa de Angelo Agostini. Edições Nephelibata, Desterro, 2016.

O gênero do horror sempre teve uma convivência mais íntima com o mainstream literário brasileiro, e não é difícil para o leitor atento identificar obras sombrias na bibliografia de uma infinidade de autores consagrados. Isso acontece devido a uma fase importante da arte literária, que acorreu entre o final do século 19 e o início do século 20, que os pesquisadores chamam de Decadentismo. Esse movimento artístico, herdeiro tardio do gótico, que em tudo reflete aos protocolos do horror como o conhecemos hoje, foi bastante popular na Europa – especialmente na França – e, por conseguinte, sua influência atingiu o Brasil em cheio, daí a razoável prodigalidade com que esse tipo de texto foi praticado, em comparação a outros gêneros da literatura especulativa.
Contos de terror, antologia organizada pelo pesquisador Camilo Prado para a editora independente Nephelibata, buscou reunir uma amostra da escola decadentista brasileira, para o que o organizador estabeleceu uma regra de ouro: só publicar contos em que os elementos tétricos fossem decorrentes de uma ação natural. Ou seja, nada de assombrações, demônios e outras manifestações do sobrenatural. Trata-se, portanto, de uma antologia de terror no sentido estrito, em que são apresentadas as faces mais sombrias do ser humano a partir da arte de autores renomados, quase todos em domínio público, numa tiragem muito pequena: apenas 70 exemplares numerados produzidos artesanalmente pelo editor. Este volume é uma espécie de lado B de uma publicação anterior, a antologia Contos decadentes brasileiros, já esgotado, mas que a editora pretende dar sequência com dois novos volumes que estão no prelo.
Outro aspecto interessante adotado pelos editores foi a manutenção da grafia da época, ou seja, os textos são apresentados da mesma maneira em que foram vistos originalmente, com as regras ortográficas da virada do século 19, o que dá um sabor especial à leitura, assim como as ilustrações do jornalista ítalobrasileiro Angelo Agostini, um dos primeiros ilustradores editoriais do país.
São quinze os textos presentes neste volume, de autoria de quatorze autores: Coelho Netto, Lucilo Varejão, Viriato Corrêa, Domicio da Gama, João do Rio, Julia Lopes, Humberto de Campos, Théo-Filho, Rodrigo Octavio, Monteiro Lobato, Carlos de Vasconcelos, Baptista Junior, Gastão Cruls e Medeiros e Albuquerque.  Alguns nomes são identificados com a literatura especulativa – como Humberto de Campos, João do Rio, Coelho Netto, Gastão Cruls e Monteiro Lobato –, mas a maior parte dos nomes é mesmo uma grata novidade. O organizador cuidou para que cada um deles fosse devidamente apresentado ao leitor numa breve biografia que antecede cada um dos contos, e ajuda bastante a contextualização do que será lido.
O conto que abre a seleta é "Na treva", de Coelho Netto, autor extremamente popular em sua época, dono de um estilo rebuscado com pendão para o inusitado, que conta a história vertiginosa de um grupo de passageiros a bordo de um trem noturno aparentemente desembestado.
Outro texto de destaque é "A peste", de João do Rio, que desenvolveu em seus contos um importante trabalho de registro da cultura carioca de sua época. Neste, o drama hospitalar sobre um surto de varíola.
"Madrugada negra", de Viriato Corrêa, não é de todo desconhecido. Trata-se de um relato em primeira pessoa, em que um homem conta a um grupo de amigos uma história de grande infortúnio. Contar uma história dentro de outra é um formato recorrente neste tipo de narrativa, e o autor de Cazuza, membro da Academia Brasileira de Letras, desfia aqui uma tragédia advinda da covardia de um homem.
Julia Lopes é a única mulher no grupo, e também única a comparecer com dois textos.  Sob as estrellas" envereda pela trágica relação de amor de um casal separado pela insensibilidade do homem, e "As rosas" é a história triste e tétrica de um jardineiro que perdeu a filha.
Outra história bastante antologizável é "O juramento", de Humberto de Campos, sobre um homem que testemunhou a amada ser devorada por índios canibais.
Gastão Cruls, autor do importante romance A Amazônia misteriosa, aparece aqui com "G.C.P.A.", também uma narrativa hospitalar sobre um homem que padece de uma doença rara.
"Bugio moqueado" é o texto de Monteiro Lobato, um dos maiores clássicos do terror brasileiro, originalmente publicado na coletânea Negrinha (1920), com o relato sobre a técnica educativa de um homem muito mau.
Também vale comentar aqui o texto de Ridrigo Octavio, "Gongo Velho (Cousas de outro tempo)", uma história pungente de exploração e preconceito que, ainda que tenha sido publicada em 1932, tem forte apelo em nossos dias.
A antologia é muito equilibrada e demonstra o quanto o Decadentismo foi prolífico no Brasil. Sabemos que muitos desses autores não se negavam a avançar nos domínios do sobrenatural quando lhes convinha, como se pode perceber na leitura de antologias como Páginas de sombra (Casa da Palavra, 2003) e Contos macabros (Escrita Fina, 2010). Mesmo sem o componente metafísico, Contos de terror junta-se a elas para contribuir com o estudo da presença da ficção de horror na literatura brasileira. Sem esquecer que também é, por si mesma, uma leitura perturbadora e, porque não, divertida.

QI 143

Está circulando o número 143 do fanzine Quadrinhos Independentes-QI, editado por Edgard Guimarães, dedicado ao estudo dos quadrinhos destacando a produção independente e os fanzines brasileiros.
A edição tem 32 páginas e traz a sequência do depoimento de José Ruy sobre o periódico português Tintin, artigo de Lio Guerra Bocorny sobre algumas experiências editoriais da Ebal nos anos 1960, e quadrinhos de Chagas Lima, Luiz Cláudio Lopes Faria, Eduardo Marcondes Guimarães e do editor. Completam a edição as colunas "Mantendo contato", "Fórum" e "Edições independentes" divulgando os lançamentos de fanzines do bimestre. A capa tem uma ilustração do editor, colorizada manualmente.
Junto à esta edição, os assinantes recebem Artigos sobre Histórias em Quadrinhos 5: Roy Rogers/Dale Evans, fascículo de 12 páginas com um estudo de autoria do colecionador português Carlos Gonçalves, com muitas e belas capas de edições raras desses populares personagens.
O QI é distribuído exclusivamente por assinatura, mas sua versão digital estará disponível em breve no saite da editora Marca de Fantasia, aqui. Algumas das edições anteriores recentes podem ser lá encontradas. Mais informações com o editor pelo email edgard@ita.br.

Anuário no Adorável Noite

O escritor Adriano Siqueira, autor de histórias de horror, editor do fanzine Adorável Noite e sempre muito ativo nas redes sociais, realizou por algum tempo uma série de entrevistas em vídeo com autores, editores e personalidades ligadas à ficção fantástica brasileira. Todas as 91 entrevistas estão agora disponíveis no canal Contos de Vampiros e Terror, aqui. Destaque para as entrevistas com Eduardo Spohr, Luiz Bras, Roberto de Sousa Causo, Amanda Reznor, Giulia Moon, Raphael Draccon, Rosana Rios, Helena Gomes, Max Mallmman, Nazareth Fonseca, e Regina Drummond, entre outros.
Até o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica mereceu a atenção de Lord Dri numa rápida conversa com o autor Cesar Silva (que pode ser vista aqui) gravada em 2010 na Livraria Martins Fontes Paulista, durante o lançamento da edição de 2009.

Trasgo: Ano 1

A revista eletrônica de ficção fantástica Trasgo, editada por Rodrigo van Kampen e totalmente dedicada à produção nacional, está empenhada num novo projeto: a publicação de uma edição em papel. Na verdade, trata-se de uma antologia, reunindo todos os contos publicados pela Trasgo em suas quatro primeiras edições, mais três contos inéditos.
Intitulada Trasgo: Ano 1, a antologia trará, em 376 páginas, 26 contos de ficção científica e fantasia, prefaciados por Roberto de Sousa Causo, que também participará com um conto na seleção. Além dele, estarão no livro Ademir Pascale, Albarus Andreos, Ana Lúcia Merege, Caroline Policarpo Veloso, Claudia Dugim, Claudio Parreira, Cristina Lasaitis, Érica Bombardi, Frederico de Oliveira Toscano, Gael Rodrigues, George Amaral, Gerson Lodi-Ribeiro, Hális Alves, Jessica Fernanda de Lima Borges, Jim Anotsu, Karen Alvares, Liége Báccaro Toledo, Marcelo Porto, Mary C. Muller, Melissa de Sá, Tiago Cordeiro, Victor Oliveira de Faria, Enrico Tuosto, Lucas Ferraz e o próprio organizador Rodrigo van Kampen.
Van Kampen está promovendo uma campanha no saite de financiamento coletivo Catarse para viabilização financeira do projeto, com as costumeiras recompensas que caracterizam o esquema. Participe aqui.