segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Resenha: Ditadura do prazer

Desde que a geração chamada como Segunda Onda da ficção científica brasileira chegou às universidades, temos conhecido um bom número de trabalhos acadêmicos sobre o gênero. Até o final do século 20, eram poucos os casos e ainda mais raros os que chegavam a ser publicados em maior tiragem, por isso a grande importância que os estudiosos da literatura de gênero dão aos ensaios Introdução ao estudo da "science-fiction", de André Carneiro, Ficção científica, de Gilberto Schoereder, Ficção científica: Ficção, ciência ou uma épica de época, de Raul Fiker, e "Ficção científica no Brasil: Um planeta quase desabitado", de Fausto Cunha, citados em praticamente todos os estudos sérios sobre o gênero no Brasil.
Ainda que se possa levantar mais alguns bons títulos na bibliografia de referência do século passado, a maior parte dela era mesmo traduzida. O próprio ensaio de Cunha, citado acima, foi prefácio para um livro traduzido: No mundo da ficção científica, de L. David Allen.
Até a virada do século, a principal plataforma de discussão estava estruturada nos fanzines, que dedicavam muito espaço para abrigar ensaios e debates. Algumas dessas discussões realmente impactaram a produção nacional, mas praticamente não saíram dos muros do fandom.
Essa mudança de paradigma para os estudos de não-ficção no Brasil é de todo bem vinda, pois está finalmente ampliando o alcance do tema a pesquisadores de outras áreas e construindo uma bibliografia de referência que leva em conta o material produzido no País e o impacto que ela causa em nossa sociedade, numa discussão em primeira-mão. Há que se festejar também a variedade dos temas de pesquisa, que têm avançado para além de estudos genéricos, definindo recortes interessantes que abrem janelas para discussões ainda mais especializadas. Este é o caso de Ditadura do prazer: Sobre ficção científica e utopia, primeiro livro de Ramiro Giroldo, Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo e professor na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, que lhe publicou o livro.
O autor explica, na introdução do ensaio, que se trata de um livro "calcado na dissertação de mestrado 'A ditadura do prazer: Ficção científica e literatura utópica em Amorquia, de André Carneiro', defendida em 2008 no Programa de Pós-Gradução (DLE-CCHS/UFMS) – Mestrado em Estudos de Linguagens", trabalho este que foi bastante comentado a época.
O livro está dividido em três partes: "Sobre ficção cientifica", "Sobre utopia" e "A ditadura de prazer". Na primeira parte, o autor levanta as origens do gênero e da expressão science fiction, creditada ao editor norte-americano Hugo Gernsback, bem como o termo abrasileirado e concensualizado, 'ficção científica'. Ainda hoje se discute a validade e abrangência do termo e não são poucos os que não gostam dele – tanto lá como cá –, mas nenhum outro se estabeleceu tão solidamente no mercado editorial e no imaginários dos leitores.
Giroldo evoca os estudos de Darko Suvin, acadêmico de origem croata, professor da McGill University de Montreal, que no ensaio Pour une poétique de la science fiction tem uma forma bastante técnica de definir o alcance do termo, baseado nos aspectos cognitivo e não-cognitivo da questão. Também invoca o conceito freudiano de unheimlich (algo como 'estranhamento') que, articulado às proposições de Zuvin, servirá de linha mestra à análise de Giroldo sobre o tema principal do seu ensaio: a utopia.
Na segunda parte, o autor busca por Tomas More e seu trabalho seminal, Utopia, amplamente estudada por diversos pesquisadores, para identificar seus aspectos originais. Quase sempre, ouvimos dizer que "utopia" significa "lugar nenhum" (ou-topos), mas Giroldo comenta que também pode ser "lugar bom" (eu-topos), o que já é suficiente para gerar uma ótima discussão.
Outro foco interessante do estudo de Giroldo é o confronto dos aspectos positivos e negativos das utopias de forma geral – como a falta de liberdade individual –, de forma que toda a utopia aciona imediatamente uma distopia, conforme o ponto de vista adotado, pois perfeição utópica implica na perda da liberdade e na formatação do ser humano num estado homogêneo sem expectativas. Para isso, Giroldo toma exemplos de importantes textos da ficção científica, como Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, Nós, de Ivanovitch Zamiatin, A cidade e as estrelas, de Arthur C. Clarke, Fazenda Modelo, de Chico Buarque, A adaptação do funcionário Ruam, de Mauro Chaves, Piscina livre e Amorquia, ambos de André Carneiro, além de citar diversas outras obras igualmente relevantes.
Discussões sobre as já citadas ideias de Freud e More voltam a pautar a terço final do ensaio, com uma discussão ainda mais aprofundada sobre a busca pelo desprazer, agregando ao estudo os livros de 1984, de George Orwell, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, Os amantes do ano 3050, de Philip Jose Farmer, e a novela "Diário da nave perdida", de André Carneiro.
Em um texto breve, o autor faz suas considerações finais, colocando na balança as definições de bem e mal frente a visão da utopia e da distopia, que me fez pensar se existe de fato alguma fronteira entre a utopia, a distopia e a ficção científica como um todo, ideia esta que gerou um interessante debate com Giroldo pelas redes sociais. Sem dúvida, esta é uma discussão que está apenas começando.

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