sexta-feira, 23 de junho de 2017

Minicontos Volume 3

Está disponível o Volume 3 da antologia Minicontos, organizada por Lucas Palhão pelo Blog do Palhão. São 101 páginas com 26 textos de diversos autores, em vários gêneros, selecionados no Projeto Quarta-Feira Criativa.
Aproveite, que o volume está sendo oferecido gratuitamente até 23 de junho – basta acionar o botão "comprar agora". Depois disso, o preço será de R$2,99. Baratinho.
O Volume 1 e  o Volume 2 também estão disponíveis.

Peryc Sketchzine 1

Editor dos prestigiosos fanzines Tchê e Quadrante Sul, Denilson Rosa dos Reis acaba de anunciar o lançamento da primeira edição de Peryc Sketchzine, personalzine que compila pinups de diversos ilustradores desenhando o personagem Peryc, o mercenário, criado pelo editor.
A publicação tem oito páginas e traz imagens de Alexandre Fontoura Doeppre, Cameron Stewart, Daniel Hdr, Danilo Beyruth, Dennis Rodrigo Oliveira, Eddy Barrows, Elmano Silva, Jeff Smith, João Paulo Anselmo, Juliano Machado, Júlio Shimamoto, Leandro Fernandez, Lucas SB, Luke Ross, Rafael Albuquerque, Renato Guedes, Ronilson Caetano Leal, Shiko, Silvio Ribeiro e Helcio Rogério, com capa é do mestre Mozart Couto.
A edição em papel pode ser encomendada por apenas R$2,00, mas também está disponível em edição virtual gratuita, no formato cbr. Para obter qualquer delas, entre em contato com o editor pelo email tchedenilson@gmail.com.

Freebooks

Se há uma coisa que a internet trouxe de bom é a facilitação logística para as editoras pequenas. Hoje, com pouquíssimo investimento, é possível construir um bom catálogo de fazê-lo circular, apesar do ambiente virtual ser ainda modesto se comparado ao mercado formal. Desse modo, é possível disponibilizar ao público propostas editoriais diversificadas, com autores novos e experientes, com a vantagem insuperável de ser tudo de graça para o leitor.
Esta é a estratégia da editora virtual Free Book, coordenada pelo escritor e editor Paulo Soriano. Diz ele: "O objetivo de Free Books Editora Virtual consiste em publicar e disponibilizar gratuitamente obras em prosa de autores brasileiros ou estrangeiros em língua portuguesa. Além disto, publicamos obras clássicas, escritas por grandes mestres da Literatura Universal.  As nossas traduções são originais ou de tradutores cuja obra está em domínio público".
No catálogo da Free Book encontramos histórias de horror, fantasia e ficção científica, entre eles trabalhos do próprio editor, de Roberto de Sousa Causo e Duda Falcão (cujas capas ilustram este post), além de diversos autores estrangeiros como Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant, Ambrose Biece, Anton Tchekhov, Gustav Flaubert, Giovanni Boccaccio, Horacio Quiroga, Nathaniel Hawthorne, entre outros.
Os livros estão disponíveis em formato mobi, epub e pdf, e podem ser baixado gratuitamente aqui.

O pitbull é manso, mas...

O romance de horror O pitbull é manso, mas o dono dele já mordeu uns quantos..., de Simone Saueressig, recebeu uma nova edição, com capa nova e texto revisado para contar a aventura de Deco, Bebel e Marcão e um lobisomem. E o melhor de tudo: gratuito. Baixe seu exemplar em formato pdf no saite da autora, aqui.

Velta 2017

Depois de um longo hiato, o quadrinhista paraibano Emir Ribeiro lançou uma nova edição com aventuras de sua criação. Trata-se de Velta 2017, que dá continuidade às histórias vistas nas edições anuais de 2014 e 2015. Diz o autor e editor: "a enigmática Nefertite tem sua origem revelada, e demonstrando que não veio para brincadeira, derrota – ao mesmo tempo – Velta, Doroti e Denise... Como se não bastasse, Velta e Doroti vão parar num lugar ermo e gelado, onde são forçadas a se unirem para poder sobreviver".
A edição, publicada em formato impresso com capa plastificada em cores com lombada quadrada, tem 68 páginas em p&b, custa R$25,00 e pode ser adquirida diretamente com o editor. Mais informações pelos emails emir.ribeiro@gmail.com e emir_ribeirojp@yahoo.com.br.

sábado, 10 de junho de 2017

LiteraLivre

Mais um periódico literário ganha o mundo em 2017: trata-se da Revista LiteraLivre, publicação eletrônica bimestral editada em Jacareí (SP) por Ana Rosenrot.
LiteraLivre tem de tudo um pouco: contos, artigos, divulgação, quadrinhos, resenhas e muita poesia. A ideia é "dar espaço aos escritores e artistas de todos os lugares, amadores ou profissionais, publicados ou não, que desejam divulgar seus escritos e mostrar seu talento de forma independente e livre".
Já foram publicadas 3 edições, cada uma com mais de 100 páginas, que aumentam a cada nova edição. E a revista aceita colaborações, sem qualquer ônus aos autores.
Todos os números já publicados podem ser baixados gratuitamente aqui.

Múltiplo 8

Está circulando o número 8 do fanzine virtual de quadrinhos Múltiplo, editado por André Carim.
A edição, de junho de 2017, tem 152 páginas e é dedicada ao trabalho das mulheres nos quadrinhos brasileiros, destacando Mariana Cagnin, Gabriela Franco, Thina Curtis e Fabi Menassi, que são entrevistadas. Nas histórias, Gisela Pizzatto do Prado, Alessandra Freitas e Tako X, Carla Acácio, Miho Orihara, Laura Athayde, Cristiane Armezina, Emanuelly Souza, Sara Gaspar e Layanne Teixeira, Gisela Pizzatto do Prado, Maria Rita, Roberta Cirne, Beatriz Linhares, Pamela Marins, Claudiney Dias, Thiago Silva e Mariana Garcia, além de depoimentos de Alessandra Freitas e Danielle Barros. Completam a edição, ilustrações avulsas, artigos, divulgação de fanzines e cartas dos leitores. A capa traz uma ilustração de Mariana Cagnin.
A publicação pode ser lida online ou baixada gratuitamente aqui. Edições anteriores também estão disponíveis. As publicações também podem ser encomendadas em formato impresso.

A última árvore

Luis Brás é, sem dúvida, a maior revelação da fc brasileira neste século. Desde o primeiro livro de contos, Paraíso líquido, que seus textos têm impressionado os leitores especializados no gênero, pelas ideias inovadoras e estilo sofisticado. Não é para menos: Luiz Bras é heterônimo de Nelson de Oliveira, escritor premiado duas vezes com o Casa de las Americas, que já tinha um excelente currículo no mainstream.
Contudo, os primeiros livros do autor já estão fora de catálogo e é difícil encontrar exemplares nos sebos. Por isso, é muito oportuna a publicação de A última árvore, nova coletânea de Luiz Brás que chega pelo site Livros-Fantasma, com edição financiada com verba do Proac, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. O livro faz parte de uma coleção de 24 volumes, mas é o único que navega nas águas do fantástico.
A última árvore não trás contos inéditos: todos já foram vistos em outras publicações, mas que estão na categoria dos livros esgotados. São oito textos: seis retirados do já citado Paraíso líquido, um do projeto Portal – coleção de antologias organizada por Brás na primeira década do século – e outro, mais recente, visto primeiro no periódico eletrônico Trasgo. E o melhor de tudo é que o livro pode ser baixado gratuitamente em formato pdf, renovando e facilitando o acesso público a alguns dos melhores contos da fc nacional recente.
Para baixar o arquivo, basta acessar o saite Livros-Fantasma, aqui. Os outros 23 livros da coleção também estão disponíveis.

Conexão Literatura 24

Está circulando o número 24 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição tem 59 páginas e destaca o trabalho de Conceição Evaristo, escritora mineira, ativista do movimento negro, autora de Insubmissas lágrimas de mulheres (2011) e Leves enganos e parecenças (2016), entre outros. A publicação traz contos de Edispon Lotério, Mirian Santiago e Jacqueline Colodo Gomes, crônicas de Misa Ferreira e Rafael Botter, e uma resenha de Ângelo Miranda ao livro Gratidão, de Oliver Sacks. Ainda aparecem entrevistas com os escritores Mariane Alves (Poetizando a rotina), Nicolas Silveira (Carcará-Man), Marcos DeBrito (Escravo de Capela), Aislan Coulter (Twittando com o vampiro), Daniel Malard (Planeta droga), Lanna Kamila (Moça estranha) e Sheila Ribeiro (Cabra cega).
A revista é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

sábado, 27 de maio de 2017

O espírito da ficção científica

O espírito da ficção científica (El espíritu de la ciencia ficción), Roberto Bolaño. Tradução de Eduardo Brandão. 184 páginas, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2017.

Nascido no Chile em 1953, Roberto Bolaño teve uma vida movimentada até sua morte, em 2003, vítima de problemas renais. De estudante nerd, o que não era nada bom naqueles tempos, Bolaño tornou-se um militante socialista, chegou a ser preso durante o golpe de Pinochet, mudou-se para o México, depois para Espanha, e construiu uma sólida carreira literária, sendo reconhecido como um dos principais autores de sua geração.
Em espírito da ficção científica, pequeno livro póstumo, fica patente seu apreço pela literatura especulativa. O autor aproveita passagens da própria vida - embora não seja uma autobiografia - para construir um retrato da juventude mexicana nos anos 1970, dividindo-se em dois personagens: Reno, candidato a poeta que investiga uma inexplicável explosão de lançamentos de fanzines, e Jan, um rapaz recluso, leitor voraz de ficção científica, que passa seus dias escrevendo cartas a seus autores favoritos.
Enquanto garimpam por suas vidas, Reno e Jan, se envolvem com diversas personagens da sociedade underground mexicana: ativistas, poetas e malucos de forma geral, acadêmicos obscuros, traficantes, cafetões e garotos de programa, tudo no mais absoluto e crível nonsense que categorizou a adolescência nos anos 1970.
O romance é formado por uma série de plots paralelos, alguns relacionamento interdependentes, outros nem tanto. Apesar de manter uma certa linearidade, os episódios têm uma amarração frouxa, como se fosse uma coletânea de contos com os mesmos personagens. Numa delas, um autor não identificado (que pode tanto ser Remo quanto Jan) participa de uma cerimônia em que é homenageado com algum tipo de prêmio. Dentro dessa narrativa, o autor conta outra história a alguém que o entrevista, que seria o enredo de seu romance premiado, sobre uma guerra que alcança uma inusitada faculdade de agronomia especializada no cultivo de batatas. Essas duas narrativas são entremeadas pelos depoimentos de Remo em suas andanças pela cidade do México em busca de poetas perdidos, e das cartas que Jan escreveu. Os destinatários delas são nomes conhecidos dos fã de ficção científica: Forrest J. Ackerman, Robert Silverberg, Fritz Leiber, Ursula Le Guin (que mereceu duas cartas), Philip Jose Farmer, Alice Sheldon e James Tiptree Jr (que são a mesma pessoa, e Bolaño sabia disso muito bem). Nenhuma das cartas fala de ficção científica, são confissões e pedidos, geralmente políticos, que, em sua inocência, Jan encaminha aqueles que ele admira e acha que poderiam fazer alguma diferença. De certa forma, é esse o foco que mais justifica o título do livro, não pelos autores em si, pois seus nomes são a única contribuição clara do gênero ao romance, mas e espírito do fã, que os venera ao ponto de simular um diálogo pessoal com cada um deles.
Também muito curioso é a obsessão de Jan pelos seus livros que, em certo momento, assumem uma proporção tão predominante no pequeno apartamento que divide com Remo que são obrigados a usar a biblioteca de forma um tanto mais racional: os volumes viram uma mesa de refeições, para desespero dos puristas.
O espírito da ficção científica é um livro pequeno, que se lê com prazer, mas que não tem uma conclusão. O capítulo final, um relato de Remo sobre suas aventuras eróticas nas saunas da cidade do México, demonstra bem a lapidação que o autor deu ao romance. Nem mesmo as histórias dentro das histórias têm finais satisfatórios. Não que isso faça falta: muitos livros realmente ficariam melhores caso seus autores tivessem a sensibilidade de eliminar os últimos capítulos. Dessa forma, O espírito da ficção científica é um livro que abre diálogos, propõe ideias e registra uma época.  E isso é muito mais que muitas trilogias com milhares de páginas jamais conseguiram fazer.

Anacrônicos

Um dia, sem maiores explicações, a sua mãe morta há anos ressurge na cozinha, repetindo continuamente uma ação do seu passado. Ela não interage com você; apenas revive a cena, como se fosse um filme antigo em realidade expandida. Ela pode ser tocada, mas aparentemente não sente o seu toque. A textura é estranha, borrachuda. Não pode ser ferida e não muda uma vírgula no roteiro. No começo, é emocionante mas, com o passar do tempo, torna-se dolorosamente insuportável. Outras pessoas começam a experimentar situações similares, com seus antepassados retornando da morte para interpretar repetidamente antigos papéis. Tudo se complica quando outros momentos dessa pantomima macabra começam a se sobrepor, com diversas cópias dos duplos ressurretos entrecruzando-se no espaço. E fica ainda pior quando mais personagens materializam-se do passado, numa cacofonia enlouquecedora. E quando ressurgirem personagens famosos, como Hitler e Jesus Cristo, onde o mundo irá parar?
Esta é a história que o escritor Luiz Bras oferece aos leitores no ebook Anacrônicos, um conto de ficção fantástica de 30 páginas, ao estilo New Weird, em que o autor retoma o tema da solidão, explorado em profundidade no romance Sozinho no deserto extremo (Prumo, 2012). Mas aqui a situação se inverte: ao invés do isolamento físico, a solidão emerge da multidão de pessoas alheias que impedem a interação social e emocional dos indivíduos. Também a questão dos personagens famosos ressuscitados dialoga com outras obras da ficção especulativa, como a série Riverworld, de Philip Jose Farmer, uma influência de peso que revela a possibilidade de uma exploração mais profunda no tema, que não foi o objetivo de Bras nesta obra.
Luis Bras é escritor de ficção fantástica, nascido na cidade imaginária de Cobra Norato, mas na verdade é uma persona do premiado escritor Nelson de Oliveira, que experimenta aqui os préstimos da edição digital através da plataforma de autopublicação da Amazon. A produção editorial é gráfica é do próprio autor, que também fez sua revisão e encomendou a Teo Adorno, a persona ilustradora de Oliveira, o ótimo desenho da capa. A produção interna também é minimalista, com pequenos toques coloridos nas aberturas dos capítulos. Tudo muito limpo e elegante.
A edição está disponível no saite da livraria Amazon, aqui.

Juvenatrix 185

Está disponível a edição de maio do fanzine eletrônico de horror e ficção científica Juvenatrix, editado por Renato Rosatti.
A edição tem 13 páginas e traz um conto do editor e resenhas aos filmes Demônio, o rei das trevas (Prime evil, 1988); Espíritos do demônio (Evil spirits, 1990), A hora do terror (Witchcraft 7: Judgement hour, 1995), A maldição da casa do diabo (The fall of the house of Usher, 1979)
A maldição de El Diablo (The evil below, 1989), A maldição dos espíritos (Spirits, 1990), A marca do vampiro (Pale blood, 1990), A morada do terror (Grandmother´s house, 1988) e  A morte veste vermelho (I´m dangerous tonight, 1990). Divulgação de fanzines, livros, filmes e bandas independentes de rock extremo complementam a edição. A capa traz uma ilustração de Angelo Junior.
Para obter uma cópia, basta solicitar pelo email renatorosatti@yahoo.com.br.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Um estudo da fc&f brasileira em 2016

Em 2016, voltei às carteiras escolares, mais exatamente ao curso de Filosofia na Universidade Federal do ABC, Campus São Bernardo do Campo. Nos primeiros quadrimestres do curso, a grade curricular é básica para todos os estudantes de Bacharelado em Ciências e Humanidades, que é o caso de Filosofia. Dessa forma tenho disciplinas de várias áreas de Humanas e Tecnologia.
Neste quadrimestre, cursei a disciplina de Bases Computacionais da Ciência, com o professor Cesar Giacomini Penteado que, entre outras coisas, solicitou que a turma se organizasse em grupos e que fizessem trabalhos de estatística com as ferramentas tratadas no curso. Junto comigo ficaram no grupo os colegas Amanda Soares de Melo, Tiago Rocha do Nascimento e Vinicius Brambilla Alakaki.
Como o tema do trabalho era livre, e com uma pequena influência minha, o grupo aceitou trabalhar sobre os lançamentos de ficção fantástica brasileira em 2016, cuja planilha eu já tinha pronta (ou quase) para publicação.
A relação completa dos lançamentos ainda não foi publicada – voltarei ao assunto no momento oportuno –, mas o resultado do trabalho pode ser lido aqui. O texto não é longo, mas  meus colegas fizeram intervenções analíticas muito interessantes, vale a pena conferir.
A UFABC, por ser caráter de pesquisa científica, parece dar boa abertura para a ficção fantástica, e a fc em particular. Outras ações podem vir no futuro.

Fanzine Ilustrado

Nova proposta de André Carim – editor do fanzine Múltiplo. A cada edição, o Fanzine Ilustrado destaca um importante ilustrador brasileiro.
A publicação tem pouquíssimo texto, um mínimo só para contextualizar o artista. O foco são as ilustrações, exibidas no estado da arte, com muito colorido.
A primeira edição, lançada em março, tem 92 páginas ilustrações e pinups do premiado caricaturista carioca Nei Lima.
O segundo número, de abril, tem 81 páginas em homenagem ao quadrinhista Julio Shimamoto, e podemos apreciar com prazer o trabalho do mestre como artista plástico, fora do modelo dos quadrinhos com que estamos habituados.
As edições podem ser baixadas nos links respectivos, e versões impressas estão disponíveis no saite Clube de Autores, aqui.

Conexão Literatura 23

Está circulando o número 23 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição tem 54 páginas e destaca o trabalho de Carolina de Jesus (1914-1977) uma das primeiras escritoras brasileiras negras, autora do clássico Quarto de despejo. A publicação traz contos de Mírian Santiago, Helder Félix de Souza Júnior e Amanda Leonardi, crônicas de Rafael Botter e Misa ferreira, resenha de Eudes Cruz ao livro Diário de uma escrava, de Rô Mierling, e entrevistas com Carla Krainer (Júlia), Fathyma Jaguanharo (Cárcere de sonhos), Morais de Carvalho (Todos iguais, poucos diferentes) e Sofia Silva (Sorrisos quebrados).
A revista é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

Múltiplo 6 e 7

Estão disponíveis duas novas edições do fanzine virtual de quadrinhos Múltiplo, editado por André Carim.
O número 6, de abril de 2017, tem 104 páginas e destaca o trabalho do fanzineiro e quadrinhista Juvêncio Veloso como o entrevistado do mês, e também entrevista o quadrinhista e acadêmico Gazy Andraus. Nos quadrinhos, trabalhos de Cayman Moreira, Salatheil Anacleto, Calazans, Edgard Guimarães, Edgar Franco, Orlando, Bira, Wanderley e Rafael Portela. A capa traz uma ilustração de Cayman Moreira.
O número 7, de maio, também tem 104 páginas e evidencia os trabalhos do astro dos quadrinhos Mike Deodato e do quadrinhista fanzineiro Carlos Henry. Nos quadrinhos, Airton Marcelino, André Carim, Carlos Henry, Glauco Torres, Flávio Calazans, Isaac Tiago, Edgard Guimarães e Márcio Sennes, além de um artigo sobre o quadrinhista Fernando Marques. A capa é assinada pelo mestre Julio Shimamoto. As edições são completadas com ilustrações avulsas, artigos, divulgação de fanzines e cartas dos leitores.
As publicações podem ser baixadas gratuitamente nos links correspondentes. Edições anteriores também estão disponíveis.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O livro de Moriarty

O livro de Moriarty (The book of Moriarty), Arthur Conan Doyle. 416 páginas. Tradução e apresentação de José Francisco Botelho.  Editora Companhia das Letras, selo Penguin Companhia, coleção Clássicos. São Paulo, 2017.

Nem é preciso ser um grande leitor de romances de mistério para reconhecer o nome Moriarty. A simples menção desse nome faz surgir uma série de dúvidas e questionamentos. Apesar de ser tão conhecido, Moriarty é um grande mistério, certamente o maior de todos os mistérios que rondaram os pesadelos do maior detetive de todos os tempos, Sherlock Holmes.
Quem viu o filme Sherlock Holmes: O jogo de sombras (Sherlock Holmes: A game of shadows, 2011, Guy Ritchie), por certo deve ter ficado impressionado com a evidência de Moriarty na trama: um antagonista enérgico e decidido, com o poder de movimentar forças acima de qualquer outro mortal. Pois, via de regra, é essa a imagem que o vilão tem no imaginário dos fãs de Sherlock Holmes.
Mas a fama de Moriarty excede seu efetivo significado, e isso fica muito claro na leitura de O livro de Moriarty. Trata-se de uma coletânea com todos os textos (cinco contos e um romance) escritos por Doyle nos quais se insinua a sombra do "Napoleão do Crime", como diria Holmes. Em alguns, é apenas uma citação, em outros, o gênio do mal até chega dá o ar de sua graça, mas sempre de forma transversal e reticente. Porque a grande habilidade de Moriarty é justamente ficar à parte, resguardado de qualquer perigo ou comprometimento que possa atingi-lo.
A introdução escrita por José Francisco Botelho é um show à parte. Além de contextualizar autor e obra, conta detalhes curiosíssimos sobre a mitologia do personagem e sua relação com os leitores que, podemos dizer, foi o primeiro modelo de um fandom organizado. Porque a obsessão dos leitores por Holmes criou um verdadeiro culto, em que a realidade e a ficção estão de tal forma amalgamados que é quase impossível discernir entre uma e outra. Pois os fãs, todos altamente especializados, elaboraram todo tipo de teorias sobre Holmes, Watson e os personagens que aparecem nas histórias – inclusive o famigerado Moriarty. Teria Holmes realmente existido? Alguns afirmam convictamente que sim. Que Doyle nada mais fez que redigir, de forma coerente, as histórias dessa surpreendente personagem, a partir dos relatos do Dr. Watson.
O cuidado com que as histórias foram escritas, a grande quantidade de referências reais (ou quase) e a estrutura firme que amarra a série, sem falar de muitos outros elementos, fazem de Sherlock Holmes um repositório de lendas urbanas e emprestam a Moriarty muito mais que uma aura opressora.
A primeira história é "O problema final", justamente aquela em que Doyle, cansado de seu personagem – apesar da fortuna que lhe trouxe – decidiu matá-lo. E o consumador desse crime não poderia ser ninguém além de Moriarty. Contudo, no texto seguinte, "A aventura da casa vazia", mostra a volta de Holmes do reino dos mortos, numa história em que o detetive terá de usar de extrema astúcia para capturar um dos mais perigosos asseclas de Moriarty.
As histórias seguintes têm ainda menos interferência de vilão. Em "O caso do construtor de Norwood", Holmes busca inocentar um homem que parece claramente culpado de um assassinato macabro. Em "O caso do jogador de rúgbi", Holmes precisa encontrar o craque do esporte que aparentemente desapareceu do mundo dos vivos. Em "Sua última mesura", Holmes usa sua "magia" para impedir um espião alemão de concluir seus planos sinistros. Em "O caso do cliente ilustre", Holmes tem de impedir uma jovem aristocrata de cair nas garras de um trapaceiro internacional. Fecha o volume o romance "O Vale do Medo", que toma metade das suas 416 páginas. Na primeira parte, Holmes tem que descobrir como um homem foi morto dentro de sua própria casa por alguém que, aparentemente, não existe. Resolvido o mistério, a segunda parte do romance conta a vida pregressa da vítima, numa história surpreendente, quase um faroeste, sobre como um esperto detetive da Pinkerton desbarata uma gangue de criminosos numa região carvoeira dos Estados Unidos.
Dessa forma, O livro de Moriarty cumpre o papel de desmistificar o Napoleão do Crime, embora, a sua maneira, o próprio Sherlock Holmes resista heroicamente a isso. O que nos leva a concluir que, talvez, a melhor estratégia de Moriarty seja justamente convencer a todos nós de que ele não é assim tão perigoso.

Prisma Negro

Há algum tempo que a fronteira entre os fanzines e as revistas ficou muito imprecisa. Tanto as editoras ditas comerciais começaram a investir em quadrinhos autorais, na linha antes própria dos fanzines, quanto estes passaram a ser publicados com tal qualidade técnica e gráfica ao ponto de serem confundidos com as produções comercias. Este é o caso de Prisma Negro, revista de quadrinhos de autoria de Andy Corsant, quadrinhista catarinense autor tanto do enredo quanto dos desenhos da edição.
Prisma Negro traz um conto gráfico de fantasia urbana em que três jovens desesperançados são simultaneamente visitados por misteriosos emissários que lhes entregam arquivos de canções digitais de uma banda desconhecida, justamente chamada Prisma Negro, pelas quais os garotos ficam obcecados. As canções, a qual eles se apegam com ardor, conduzirão suas almas torturadas a um significado maior em suas vidas.
Diz o texto na contracapa: "Uma menina precocemente grávida de um rapaz ainda mais jovem e incapaz de assumir a paternidade. Em uma conceituada escola de segundo grau, um aluno é repetente por perseguição de um professor arrogante. O namoro dissolvido faz um garoto rejeitado sofrer pesadas agruras. Vivendo seus dilemas pessoais solitariamente, esses três adolescentes serão unidos por forças obscuras, responsáveis por fazê-los experimentar estranhas distorções na realidade e nos cursos de suas vidas."
A história é sensível e bem contada, os desenhos são competentes e o acabamento da publicação, como já foi dito, é muito bom. A revista, que foi publicada pelo autor em 2017, tem 48 páginas e, além da hq em si, não traz nenhuma informação sobre o autor e a obra. Mas algumas dicas podem ser obtidas no blogue do autor, aqui, onde, aliás, a revista também pode ser adquirida.

QI 144

Está circulando o número 144 do fanzine Quadrinhos Independentes-QI, editado por Edgard Guimarães, dedicado ao estudo dos quadrinhos destacando a produção independente e os fanzines brasileiros.
A edição tem 32 páginas e traz artigo sobre o super-herói brasileiro Escorpião, criado em 1966 por Wilson Fernandes, "Conselhos" do quadrinhista espanhol José Toutain, artigo de Lio Guerra Bercony sobre a revista Oscarito e Grande Otelo, quadrinhos de Luiz Cláudio Lopes Faria e do editor, e as colunas "Mantendo contato", "Fórum" e "Edições independentes" divulgando os lançamentos de fanzines do bimestre. A capa tem uma ilustração do editor, com uma discretíssima aplicação de cor executada manualmente.
Junto à edição, os assinantes recebem Artigos sobre Histórias em Quadrinhos 6: Red Ryder, fascículo de 12 páginas com um estudo de autoria do colecionador português Carlos Gonçalves, com muitas capas de edições raras desses personagem muito popular nos anos 1930, também conhecido como Bronc Peeler.
Os assinantes recebem ainda, de brinde, o número 13 do fanzine Quadritos, editado por Marcos Freitas pela editora Atomic Books, uma edição luxuosa com 64 páginas e capas em cores, que destaca o trabalho de Elmano e traz quadrinhos de Mozart Couto, Julio Shimamoto, Calazans, Lafaiete, Edgar Franco, Guabiras, Paulo Paiva, além de muitos artigos interessantes sobre a Nona Arte.
O QI é distribuído exclusivamente por assinatura, mas sua versão digital estará disponível em breve no saite da editora Marca de Fantasia, aqui. Mais informações com o editor pelo email edgard.faria.guimaraes@gmail.com.

As aventuras do Longo Bacamarte

Está disponível aqui, para download gratuito, o novo romance escrito por Miguel Carqueija e Melanie Evarino, As aventuras do Longo Bacamarte, uma história de fantasia com piratas.
Diz o texto de apresentação: "Bil, o Longo Bacamarte, é um pirata que se dedica à caça de tesouros. Acompanhado pelo elfo conhecido por Professor Primus, e uma pequena e escolhida tripulação, percorre o mundo em seu brigue Renegado vivendo inúmeras aventuras e tendo a cabeça a prêmio em muitos lugares. Sobretudo Rigolin, o temido detetive internacional com trânsito livre em vários países, ambiciona levar à forca o célebre bucaneiro. Mas Bil não é um pirata comum ou muito menos, despido de sentimentos. Ele carrega em seu coração um triste segredo, o amor de uma mulher a quem ele perdeu num naufrágio em alto mar, quando ambos foram salvos mas levados para locais diferentes e jamais se reencontraram. Abandonando tudo, inclusive sua carreira de advogado, Bil tornou-se um fora-da-lei para poder singrar os mares numa incessante busca do paradeiro de sua amada. Um dia, porém, algo novo surge: Virgínia, a jovem atrevida e de personalidade fortíssima e exímia espadachim que entra para a tripulação do Renegado. Ela se enamora sinceramente por Bil, mas como conquistar o amor de um homem preso a uma ideia fixa? E que poderá acontecer se a desaparecida Rafaela reaparecer?"
O prefácio é assinado por Maria Santino e a edição é dos próprios autores, através da rede social Recanto das Letras.

Somnium 113

Ausente por todo o ano de 2016, ressurge a revista eletrônica Somnium, editada por Ricardo Herdy para o Clube dos Leitores de Ficção Científica, inteiramente dedicada a esse gênero especulativo.
A edição tem 111 páginas e traz contos de Ricardo Santos, Santiago Santos, David Machado, Graham Brand, Gerson Lodi-Ribeiro, Frederico de Oliveira Toscano, Fábio Barreto, Carlos Orsi, Gilson Luis Da Cunha, Luiz Bras e Paulo Elache, além de um artigo sobre transhumanismo, assinado por Edgar Indalecio Smaniotto, e uma homenagem ao escritor Max Mallman, falecido em 2016. A capa traz uma ilustração creditada a uma fonte anônima.
Similar ao que aconteceu quando do lançamento da edição 112, em 2015, quando foram disponibilizadas apenas as edições em formatos mobi e epub (o pdf viria meses depois), agora acontece exatamente o oposto: apenas a edição em pdf está disponível, gratuitamente, aqui. Por certo que os outros formatos virão no futuro, o que faz todo o sentido a uma publicação de ficção científica.

Trasgo 14

Está disponível o número 14 da revista eletrônica de ficção fantástica Trasgo, editada por Rodrigo van Kampen, totalmente dedicada à produção nacional.
A edição, que tem 149 páginas em sua versão pdf, traz contos e novelas de ficção científica, fantasia e terror escritos por Thiago Rosa, Paulo Alcaraz, Alaor Rocha, Michel Peres, Simone Saueressig e Felipe Cotias, além de uma galeria com ilustrações de Andressa Aboud, que também assina a capa. Todos os artistas publicados são entrevistados na edição.
Trasgo pode ser lida e baixada aqui, nos formatos epub, mobi e pdf, bastando para isso compartilhar a informação nas redes sociais. Edições anteriores também estão disponíveis.
A revista aceita submissões e os trabalhos publicados são remunerados.

Para encontrar com Flávia Muniz

 Autora do prestigiado romance de horror Os noturnos (Moderna, 1995) – possivelmente o primeiro romance do ciclo de vampiros da ficção nacional –  Flávia Muniz teve publicado em 2016 o romance O manto escarlate, fantasia soturna medieval com uma história que envolve intrigas, traições, vingança e... bruxas.
Já falei sobre ele aqui quando fiz um apanhado dos lançamentos essenciais em 2016, e retorno a ele agora porque, enfim, a editora SESI-SP fará realizar o lançamento oficial do romance.
O evento, que contará obviamente com a presença da autora, acontece no próximo sábado, dia 6 de maio, das 16 às 19 horas, na Livraria Cultura da Av. Paulista, número 2073, em São Paulo. Aproveite para, além de comprar o livro, encontrar com a autora e pegar um autógrafo. Mas, se não puder, é possível encontrar o livro aqui.

domingo, 16 de abril de 2017

Reino imaginário

Depois de toda uma vida dedicada a sua própria literatura, o prolífico escritor carioca Miguel Carqueija publica a primeira antologia organizada por ele mesmo. Trata-se de Reino imaginário, que reúne 14 contos de autores de diversas partes do Brasil. A proposta é mostrar um painel da literatura  nacional nos gêneros da ficção científica, fantasia e horror. Os textos, que variam entre contos, vinhetas e poemas, são assinados por Cristina Gaspar, Ronald Rahal, Regina Madeira, Francisco Carlos Amado, Cesar Silva, Maria Santino, Irá Rodrigues, Vânia Lopes, Maria Candida Vieira, Alex Raymundo, Jey Lima Valadares, Simone Saueressig, Maria da Penha Boselli e do próprio organizador.
Reino imaginário está disponível na rede social Recanto das Letras, onde o autor mantém uma página com seus inúmeros trabalhos.
O arquivo, em formato pdf, pode ser baixado gratuitamente aqui.

Juvenatrix 184

Está disponível a edição de abril do fanzine eletrônico de horror e ficção científica Juvenatrix, editado por Renato Rosatti.
A edição tem 14 páginas e traz um conto de Norton A. Coll e o artigo "Os 50 melhores filmes de horror do século 20", assinado por Mercello Simão Branco. Divulgação de fanzines, livros, filmes e bandas independentes de rock extremo complementam a edição. A capa traz uma ilustração de Angelo Junior.
Para obter uma cópia, basta solicitar pelo email renatorosatti@yahoo.com.br.

Conexão Literatura 22

Está circulando o número 22 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição tem 43 páginas e destaca o trabalho da escritora britânica J. K. Rowling, autora do bestseller Harry Potter. Também podem ser lidas entrevistas com os escritores brasileiros Dione M. S. Rosa (Naga), Wagner Torres de Araújo (Memórias dispersas), Angela Aguiar (Inevitável), Danni Victorino (Diário de Júlia), Angela Maria Drago (Teimosamente romântica), Júlia Lemos (A exposição dos sóis) e Priscila M. Mariano (Inocência perdida). Traz ainda contos de Míriam Santiago e Helder Felix de Sousa Júnior, e crônicas assinadas por Misa Ferreira e Rafael Botter. 
A revista é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

domingo, 26 de março de 2017

Dentro da noute

O horror está definitivamente em alta nos dois lados do Atlântico. Dentro da noute: Contos góticos, organizada por Ricardo Lourenço, é a mais nova antologia de textos clássicos do gênero, publicada em 2017 através do Projecto Adamastor.
São 397 páginas com 27 contos e novelas em domínio público, nas palavras do organizador,  "uma amostra representativa da literatura gótica produzida por escritores portugueses e brasileiros, assim como dos principais temas que caracterizam o género".
Os textos estão divididos em duas seções principais: a primeira parte é voltada aos autores portugueses: Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Alberto Osório de Vasconcelos, Raul Brandão, Fialho de Almeida, Ana de Castro Osório, Florbela Espanca, Álvaro do Carvalhal, Júlio César Machado, Beldemónio, Manuel Teixeira Gomes e Mário de Sá-Carneiro. Já a segunda parte é inteiramente dedicada aos autores brasileiros: Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Júlia Lopes de Almeida, Inglês de Sousa, Rodolfo Teófilo, Alberto Rangel, Afonso Arinos, Medeiros e Albuquerque, Aluísio Azevedo, Thomaz Lopes, Machado de Assis, João do Rio, Gonzaga Duque e Humberto de Campos, boa parte deles já vistos em seleções similares, por isso mesmo, formam um apanhado bastante representativos do que de melhor se viu em matéria de horror gótico entre os autores de língua portuguesa.
A antologia está disponível aqui para download gratuito, em dois formatos para dispositivos móveis.

domingo, 19 de março de 2017

Mistério de Deus

Há anos esperava que o meu amigo Roberto de Sousa Causo trouxesse à luz a história de Mistério de Deus, do qual fui leitor beta. A espera finalmente acabou em 2017, com o lançamento do romance pela Devir Livraria.
Mistério de Deus não é continuação nem spin-off de Um anjo de dor, romance de horror de Causo publicado em 2009 pela mesma Devir Livraria. Mas há pontos de contato entre as duas histórias, a começar pelo cenário de Sumaré, cidade no interior paulista onde o autor passou boa parte de sua juventude.
Tenho na memória, muito nitidamente, a maioria das cenas do romance, que conta a história de um ex-presidiário, leão de chácara num inferninho de Sumaré nos idos de 1991, que é levado pelas circunstâncias e por um profundo senso de justiça, a intervir nas ações de um grupo criminoso que aterroriza a região a bordo de um maverick preto envenenado. Mas não é só isso, há algo sobrenatural em torno das ações do bando, e o rapaz vai ter que levar sua determinação ao limite para tirá-los de cena.
A história tem um contorno realista que dialoga com um modelo literário que está muito em voga, como o do romance indicado ao Jabuti Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2012), um drama policial de contornos regionalistas que aos poucos assume os protocolos das histórias de horror.
Seguindo as orientações de mestres do gênero, especialmente de Stephen King, Causo não se furta a mostrar a cara do monstro no momento adequado e com toda a crueza possível. Porém, a elegância narrativa não permite que a história assuma caminhos demasiadamente apelativos, com sangue e tripas espirrando na cara do leitor, como seria de se esperar no estilo brutalista tão popular no gênero atualmente.
O livro tem 600 páginas – é provavelmente o livro mais volumoso já publicado pelo autor – e traz na capa uma ilustração agressiva de Vagner Vargas, que tem sido parceiro constante de Causo em suas publicações. 
Roberto de Sousa Causo é Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo e mantém um intensivo trabalho como autor de ficção especulativa, com diversos livros de ficção e não ficção publicados no Brasil – alguns deles premiados – e dezenas de contos publicados no exterior em países como Portugal, Argentina, França, China e Cuba. Entre seus trabalhos mais importantes, está o ensaio Ficção científica, fantasia e horror no Brasil - 1875 a 1950 (UFMG, 2003).
Mistério de Deus vai agradar vários tipos de público: desde o leitor de horror, que é óbvio, mas também os de histórias de mistério policial e principalmente os fãs de muscle cars, um público ainda pouco explorado pela literatura nacional.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Conexão Literatura 21

Está circulando o número 21 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição tem 49 páginas e destaca na capa o trabalho da escritora Thati Machado, surgida na internet que chegou ao mercado com o livro Poder extra G. Também são entrevistados na edição os escritores Cleberson Kadett (Quando o céu é o limite), Igor Feijó (Artífices da vontade), Rogério Silva (O sino), Gilmar Milezzi (Requiescat in pace: Cronicas da Cidade dos Mortos) e do roteirista e diretor de cinema Janderson Rodrigues (Mordomo da morte).
A revista ainda traz contos de Fernando Moraes, Dione M. S. Rosa e Marcelo Garbine, crônicas de Misa Ferreira e Míriam Santiago e artigo de Pedroom Lane. A coluna "Conexão Nerd" divulga o novo projeto do editor na web, a série de vídeos Curiosidades e mistérios do mundo.
A revista é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

Múltiplo 4 e 5

Em nova fase, agora virtual, Múltiplo, fanzine de quadrinhos editado por André Carim, lançou recentemente duas novas edições.
O número 4, de fevereiro de 2017, tem 80 páginas e traz um longo depoimento do mestre Júlio Shimamoto, entrevista com Alberto "Beralto" de Souza, quadrinhos de André Carim, Nei Rodrigues, Gazy Andraus, Alberto de Souza, Flavio Calazans e Clodoaldo Cruz, além de artigos, divulgação de fanzines e cartas dos leitores.
O número 5, de março, tem 84 páginas e traz uma entrevista com o ilustrador Omar Viñole, quadrinhos de  Heitor Vasconcelos, Aurélio Gomes Filho, F. Salathiel Anacleto e Rita Maria Félix, André Carim e Nei Rodrigues, Flavio Calazans, Omar, Edgard Guimarães, Juliano Facchin e Clodoaldo Cruz, Bira, Spacca e Cristina, Beralto, Fábio Barbosa e Lafaiete Nascimento, Marcelo Saravá e Bira Dantas,  duas séries de depoimentos de personalidades dos quadrinhos, divulgação de fanzines e cartas dos leitores.
As capas das duas edições trazem desenhos de Laudo Ferreira e Omar Viñole.
A publicação pode ser baixada gratuitamente aqui. As edições anteriores também estão disponíveis.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Resenha: Contos de terror

Contos de terror, Camilo Prado, org. 166 páginas Ilustrações internas e capa de Angelo Agostini. Edições Nephelibata, Desterro, 2016.

O gênero do horror sempre teve uma convivência mais íntima com o mainstream literário brasileiro, e não é difícil para o leitor atento identificar obras sombrias na bibliografia de uma infinidade de autores consagrados. Isso acontece devido a uma fase importante da arte literária, que acorreu entre o final do século 19 e o início do século 20, que os pesquisadores chamam de Decadentismo. Esse movimento artístico, herdeiro tardio do gótico, que em tudo reflete aos protocolos do horror como o conhecemos hoje, foi bastante popular na Europa – especialmente na França – e, por conseguinte, sua influência atingiu o Brasil em cheio, daí a razoável prodigalidade com que esse tipo de texto foi praticado, em comparação a outros gêneros da literatura especulativa.
Contos de terror, antologia organizada pelo pesquisador Camilo Prado para a editora independente Nephelibata, buscou reunir uma amostra da escola decadentista brasileira, para o que o organizador estabeleceu uma regra de ouro: só publicar contos em que os elementos tétricos fossem decorrentes de uma ação natural. Ou seja, nada de assombrações, demônios e outras manifestações do sobrenatural. Trata-se, portanto, de uma antologia de terror no sentido estrito, em que são apresentadas as faces mais sombrias do ser humano a partir da arte de autores renomados, quase todos em domínio público, numa tiragem muito pequena: apenas 70 exemplares numerados produzidos artesanalmente pelo editor. Este volume é uma espécie de lado B de uma publicação anterior, a antologia Contos decadentes brasileiros, já esgotado, mas que a editora pretende dar sequência com dois novos volumes que estão no prelo.
Outro aspecto interessante adotado pelos editores foi a manutenção da grafia da época, ou seja, os textos são apresentados da mesma maneira em que foram vistos originalmente, com as regras ortográficas da virada do século 19, o que dá um sabor especial à leitura, assim como as ilustrações do jornalista ítalobrasileiro Angelo Agostini, um dos primeiros ilustradores editoriais do país.
São quinze os textos presentes neste volume, de autoria de quatorze autores: Coelho Netto, Lucilo Varejão, Viriato Corrêa, Domicio da Gama, João do Rio, Julia Lopes, Humberto de Campos, Théo-Filho, Rodrigo Octavio, Monteiro Lobato, Carlos de Vasconcelos, Baptista Junior, Gastão Cruls e Medeiros e Albuquerque.  Alguns nomes são identificados com a literatura especulativa – como Humberto de Campos, João do Rio, Coelho Netto, Gastão Cruls e Monteiro Lobato –, mas a maior parte dos nomes é mesmo uma grata novidade. O organizador cuidou para que cada um deles fosse devidamente apresentado ao leitor numa breve biografia que antecede cada um dos contos, e ajuda bastante a contextualização do que será lido.
O conto que abre a seleta é "Na treva", de Coelho Netto, autor extremamente popular em sua época, dono de um estilo rebuscado com pendão para o inusitado, que conta a história vertiginosa de um grupo de passageiros a bordo de um trem noturno aparentemente desembestado.
Outro texto de destaque é "A peste", de João do Rio, que desenvolveu em seus contos um importante trabalho de registro da cultura carioca de sua época. Neste, o drama hospitalar sobre um surto de varíola.
"Madrugada negra", de Viriato Corrêa, não é de todo desconhecido. Trata-se de um relato em primeira pessoa, em que um homem conta a um grupo de amigos uma história de grande infortúnio. Contar uma história dentro de outra é um formato recorrente neste tipo de narrativa, e o autor de Cazuza, membro da Academia Brasileira de Letras, desfia aqui uma tragédia advinda da covardia de um homem.
Julia Lopes é a única mulher no grupo, e também única a comparecer com dois textos.  Sob as estrellas" envereda pela trágica relação de amor de um casal separado pela insensibilidade do homem, e "As rosas" é a história triste e tétrica de um jardineiro que perdeu a filha.
Outra história bastante antologizável é "O juramento", de Humberto de Campos, sobre um homem que testemunhou a amada ser devorada por índios canibais.
Gastão Cruls, autor do importante romance A Amazônia misteriosa, aparece aqui com "G.C.P.A.", também uma narrativa hospitalar sobre um homem que padece de uma doença rara.
"Bugio moqueado" é o texto de Monteiro Lobato, um dos maiores clássicos do terror brasileiro, originalmente publicado na coletânea Negrinha (1920), com o relato sobre a técnica educativa de um homem muito mau.
Também vale comentar aqui o texto de Ridrigo Octavio, "Gongo Velho (Cousas de outro tempo)", uma história pungente de exploração e preconceito que, ainda que tenha sido publicada em 1932, tem forte apelo em nossos dias.
A antologia é muito equilibrada e demonstra o quanto o Decadentismo foi prolífico no Brasil. Sabemos que muitos desses autores não se negavam a avançar nos domínios do sobrenatural quando lhes convinha, como se pode perceber na leitura de antologias como Páginas de sombra (Casa da Palavra, 2003) e Contos macabros (Escrita Fina, 2010). Mesmo sem o componente metafísico, Contos de terror junta-se a elas para contribuir com o estudo da presença da ficção de horror na literatura brasileira. Sem esquecer que também é, por si mesma, uma leitura perturbadora e, porque não, divertida.

QI 143

Está circulando o número 143 do fanzine Quadrinhos Independentes-QI, editado por Edgard Guimarães, dedicado ao estudo dos quadrinhos destacando a produção independente e os fanzines brasileiros.
A edição tem 32 páginas e traz a sequência do depoimento de José Ruy sobre o periódico português Tintin, artigo de Lio Guerra Bocorny sobre algumas experiências editoriais da Ebal nos anos 1960, e quadrinhos de Chagas Lima, Luiz Cláudio Lopes Faria, Eduardo Marcondes Guimarães e do editor. Completam a edição as colunas "Mantendo contato", "Fórum" e "Edições independentes" divulgando os lançamentos de fanzines do bimestre. A capa tem uma ilustração do editor, colorizada manualmente.
Junto à esta edição, os assinantes recebem Artigos sobre Histórias em Quadrinhos 5: Roy Rogers/Dale Evans, fascículo de 12 páginas com um estudo de autoria do colecionador português Carlos Gonçalves, com muitas e belas capas de edições raras desses populares personagens.
O QI é distribuído exclusivamente por assinatura, mas sua versão digital estará disponível em breve no saite da editora Marca de Fantasia, aqui. Algumas das edições anteriores recentes podem ser lá encontradas. Mais informações com o editor pelo email edgard@ita.br.

Anuário no Adorável Noite

O escritor Adriano Siqueira, autor de histórias de horror, editor do fanzine Adorável Noite e sempre muito ativo nas redes sociais, realizou por algum tempo uma série de entrevistas em vídeo com autores, editores e personalidades ligadas à ficção fantástica brasileira. Todas as 91 entrevistas estão agora disponíveis no canal Contos de Vampiros e Terror, aqui. Destaque para as entrevistas com Eduardo Spohr, Luiz Bras, Roberto de Sousa Causo, Amanda Reznor, Giulia Moon, Raphael Draccon, Rosana Rios, Helena Gomes, Max Mallmman, Nazareth Fonseca, e Regina Drummond, entre outros.
Até o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica mereceu a atenção de Lord Dri numa rápida conversa com o autor Cesar Silva (que pode ser vista aqui) gravada em 2010 na Livraria Martins Fontes Paulista, durante o lançamento da edição de 2009.

Trasgo: Ano 1

A revista eletrônica de ficção fantástica Trasgo, editada por Rodrigo van Kampen e totalmente dedicada à produção nacional, está empenhada num novo projeto: a publicação de uma edição em papel. Na verdade, trata-se de uma antologia, reunindo todos os contos publicados pela Trasgo em suas quatro primeiras edições, mais três contos inéditos.
Intitulada Trasgo: Ano 1, a antologia trará, em 376 páginas, 26 contos de ficção científica e fantasia, prefaciados por Roberto de Sousa Causo, que também participará com um conto na seleção. Além dele, estarão no livro Ademir Pascale, Albarus Andreos, Ana Lúcia Merege, Caroline Policarpo Veloso, Claudia Dugim, Claudio Parreira, Cristina Lasaitis, Érica Bombardi, Frederico de Oliveira Toscano, Gael Rodrigues, George Amaral, Gerson Lodi-Ribeiro, Hális Alves, Jessica Fernanda de Lima Borges, Jim Anotsu, Karen Alvares, Liége Báccaro Toledo, Marcelo Porto, Mary C. Muller, Melissa de Sá, Tiago Cordeiro, Victor Oliveira de Faria, Enrico Tuosto, Lucas Ferraz e o próprio organizador Rodrigo van Kampen.
Van Kampen está promovendo uma campanha no saite de financiamento coletivo Catarse para viabilização financeira do projeto, com as costumeiras recompensas que caracterizam o esquema. Participe aqui.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Carnaval com Letras

No auge do verão 2017, a fc&f dá o ar de sua graça nos lançamentos na editora Companhia das Letras.
Do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003) chega O espírito da ficção científica, um romance escrito em 1984 que estava inédito até hoje. Diz a divulgação: "conta a história de Remo Morán e Jan Schrella, dois jovens escritores obcecados por poesia e ficção científica. Enquanto o primeiro tenta incansavelmente encontrar seu espaço na literatura, o segundo passa os dias enviando cartas delirantes a seus autores favoritos de ficção científica". Não é um livro de fc, portanto, mas sobre autores de fc, metaficção que caracteriza a obra do autor.
Senhor D., do acadêmico do MIT Alan Lightman, é uma espécie de autobiografia de Deus: "Depois de uma longa existência no Vazio, o onipotente Senhor D. resolve experimentar e criar o tempo, o espaço e a matéria. Aos poucos, surgem também os astros celestes, as primeiras formas de vida e os seres pensantes. E com eles, os dilemas inesperados até mesmo para o Criador — que parecia ter tudo sob controle". Também é um livro que não é o que parece. Antes de ser uma fantasia, é de fato uma discussão filosófica sobre a ciência e a religião.
Pelo selo Seguinte, dedicado a ficção para jovens-adultos, chega A traidora do trono, da canadense Alwyn Hamilton.  Segundo volume da série iniciada em 2016 com A rebelde do deserto, trata-se de uma fantasia oriental com toques de faroeste: "Em meio às perigosas batalhas, Amani é traída e acaba se tornando prisioneira no palácio. Enquanto pensa em um jeito de escapar, tenta se aproximar do sultão para descobrir informações úteis para a causa rebelde. Contudo, quanto mais tempo passa ali, mais ela questiona se o governante é de fato o vilão que todos acreditam, e quem são os verdadeiros traidores do país".
Há alguns meses, uma moda tão avassaladora quanto passageira inundou as livrarias com livros para colorir sobre diversos temas. As editoras correram para aproveitar a onda mas a produção que atendesse aquela demanda impossibilitou que, logo de saída, surgissem produtos ligados às franquias.
Por isso é que, só agora quem gosta de pintar pode finalmente praticar seus dotes estéticos com A seleção para colorir, com ilustrações de Sandra Suy no popular universo criado por Kiera Cass. "Com vinte ilustrações de momentos emblemáticos dos cinco volumes da série, assim como vinte frases preferidas dos fãs, este é o livro ideal para quem está com saudades de A Seleção e quer passar um tempinho a mais nesse universo inesquecível".
Anna e o planeta, do escritor norueguês Jostein Gaarder (autor de O mundo de Sofia), mistura fantasia e viagens no tempo para contar a história muito curiosa: "Pouco antes de completar dezesseis anos, Anna começa a receber mensagens em seus sonhos. Preocupados, os pais resolvem levá-la a um psiquiatra, mas o médico não acha que exista algo errado. Na verdade, o excêntrico dr. Benjamin acredita que parte do que ela vê nos sonhos é real, como o agravo do aquecimento global e a consequente extinção de vários animais. Ele está certo, pois Anna está observando o mundo através dos olhos de Nova, sua bisneta que vive em 2082 e está prestes a fazer dezesseis anos".
Pelo selo Penguin Companhia, a coletânea O livro de Moriarty reúne todas as seis histórias (cinco contos e um romance) em que o detetive Sherlock Holmes enfrenta seu nêmesis: "O Napoleão do crime. É assim que Arthur Conan Doyle define o professor James Moriarty, arquirrival de Sherlock Holmes e um dos grandes vilões da literatura universal. Não há crime em Londres, do mais banal dos roubos ao mais terrível dos assassinatos, que não tenha sua mão". Um livro tanto para fãs como para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer este personagem singular.
Fechando esta série, o selo Suma das Letras apresenta A rainha de Tearling, de Erika Johansen, primeiro de uma trilogia que mistura distopia e fantasia medieval: "Quando a rainha Elyssa morre, a princesa Kelsea é levada para um esconderijo, onde é criada em uma cabana isolada, longe das confusões políticas e da história infeliz de Tearling, o reino que está destinada a governar. Dezenove anos depois, os membros remanescentes da Guarda da Rainha aparecem para levar a princesa de volta ao trono – mas o que Kelsea descobre ao chegar é que a fortaleza real está cercada de inimigos e nobres corruptos que adorariam vê-la morta. Mesmo sendo a rainha de direito e estando de posse da safira Tear – uma joia de imenso poder –, Kelsea nunca se sentiu mais insegura e despreparada para governar. Em seu desespero para conseguir justiça para um povo oprimido há décadas, ela desperta a fúria da Rainha Vermelha, uma poderosa feiticeira que comanda o reino vizinho, Mortmesne. Mas Kelsea é determinada e se torna cada dia mais experiente em navegar as políticas perigosas da corte.
Como ainda temos pela frente algumas semanas de calor, vamos aproveitar a maré enquanto esperamos pelas águas de março.