sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Trasgo 13

Está disponível o primeiro número de 2017 da revista eletrônica de ficção fantástica Trasgo, editada por Rodrigo van Kampen, totalmente dedicada à produção nacional.
Em suas 130 páginas, traz textos de ficção científica, fantasia e terror escritos por Elisa Rovai, Fernanda Castro, Maira M. Moura, Jéssica Borges, José Abrão e Noan Moraes, que também são entrevistados na edição, assim como o ilustrador Jânio Garcia, que assina a capa e muitas outras ilustrações exibidas na seção "Galeria".
Trasgo pode ser lida e baixada gratuitamente aqui, nos formatos epub, mobi e pdf. Edições anteriores também estão disponíveis. A revista aceita submissões e os trabalhos publicados são remunerados.

Teslapunk

Depois de um longo processo de seleção, a editora Madrepérola, de Londrina, acaba de publicar o primeiro livro nacional de ficção científica em 2017: a antologia Teslapunk: Contos de realidades alternadas, organizada por Marcelo Coelho com dez contos que exploram, através da lente do fantástico, o impacto da energia elétrica na sociedade.
Diz o texto de divulgação: "O teslapunk é assim nomeado graças ao cientista e inventor Nikola Tesla, um homem que revolucionou a história do mundo nos idos do século 18. Em seus contos, nos perderemos entre subestações, esquivaremos de arcos voltaicos e encontraremos nosso precursor, o próprio Nikola Tesla em carne, osso e impulsos elétricos".
Os textos que compõe a antologia são assinados Adnelson Campos, Alex Giacomin Rebonato, Bruno Lopes Curiel, Diego Navarro, Eduardo Yoshikazu Nishitani, Gabriel Guandalini, Gregório Bernardino Matoso, Jean Thallis, Leandro Zerbinatti de Oliveira e Lucas M. Carvalho.
Teslapunk tem 126 páginas e pode ser baixada gratuitamente no saite da Madrepérola, aqui.

Inquérito dos sacis

O projeto Colecionador de Sacis, do jornalista e pesquisador Andriolli Costa – que mantém um blogue muito interessante dedicado ao mito brasileiro – aproveitou os cem anos do "Inquérito sobre o saci", uma pesquisa popular realizada em 1917 por Monteiro Lobato nas páginas do jornal O Estado de S. Paulo, para produzir e publicar uma revista eletrônica inteiramente dedicada a mapear o saci em todas as suas versões, seja no folclore, na literatura, nas artes e no imaginário do brasileiro.
A revista tem 83 páginas e conta com artigos, causos, poemas e contos de um grande time: Ana Paula Aparecida Oliveira, André Lima Carvalho, David Dornelles, Douglas Rainho, Egidio Trambaiolli Neto, Elizeu Batista Thomé, Elói Bocheco, Gastão Ferreira, Gláucia Santos Garcia, Itaércio Rocha, Jorge Alexandre, Lucas Baldo Fraga, Margareth Assis Marinho, Neide da Cunha Pinto, Olívio Jekupé, Ronaldo Clipper, Sérgio Bernardo, Tânia Souza, Victoria Baubier e Wallace Gomes. Também investe na pesquisa imagética com fotos de Douglas Colombelli, Gustavo Beuttenmuller, Jessika Andras, Leo Dias de los Muertos e Maurício da Fonte Filho, e ilustrações de Adriano Batista, Alice Bessoni, Altemar Domingos, Anderson Awvas, Anderson Barbosa Ferreira, Bruno Lima, Fabio Dino, Fábio Vido, Fábio Meireles, Felipe Minas, Geraldo Borges, Giorgio Galli, Ícaro Maciel, Joe Santos, João P. Gomes de Freitas, José Luiz Ohi, Mikael Quites, Mil Araújo, Monteiro Lobato, Odoberto Lino, Rafa Louzada, Rafael Pen, Rodrigo Rosa, Romont Willy, Stuart Marcelo, Talez Silva, Thiago Cruz (Ossostortos), Ursula Dorada (SulaMoon), Vilson Gonçalves, Waldeir Brito, Webby Junior e William Chamorro, que também assina a ilustração da capa.
Diz Andriolli, o editor: "Nossa missão, nestes 100 anos de Inquérito, é mostrar como o saci ainda vive no dia a dia do brasileiro, mas em novas formas. O saci que some com o dedal da costureira e trança a crina dos cavalos é o mesmo que dá nó no fone de ouvido que fica no bolso. O mesmo que faz cair o 4G do celular. O Saci não ficou na roça. Passeia entre nós. Não está restrito ao dia do folclore nas escolas, nem às discussões contra Halloween que povoam as redes sociais. Saci não é discurso, é mito vivo".
A edição é gratuita e pode ser baixada no blogue, aqui. Tão divertida quanto o seu próprio lema: “Sacis de todo o mundo, uni-vos! Nada tendes a perder a não ser a outra perna!”.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Múltiplo 3

Com o advento da internet no Brasil em meados dos anos 1990, os fanzines em papel foram se acabando até quase desaparecem do cenário nacional. Contudo, depois de alguns anos na berlinda, passaram a representar a criatividade plástica e a resistência cultural que não estavam sendo igualmente prestigiadas por seus sucessores eletrônicos. Estava, assim, aberta a via para o retorno dos antigos fanzines, que têm ressurgido aqui e ali, não raro no formato impresso, recuperando para as novas gerações títulos que pareciam fadados ao esquecimento.
Múltiplo, fanzine de quadrinhos editado por André Carim, de bons momentos nos anos 1990, retornou em 2016 e acaba de lançar seu terceiro número.
A edição tem 72 páginas e destaca, em entrevista exclusiva, o trabalho de Edgar Franco, quadrinhista muito conhecido no ambiente da fc&f por suas ilustrações psicodélicas de viés pós humanista, que também aparece com uma hq. Traz ainda trabalhos de Nei Rodrigues, Clodoaldo Cruz, Carlos Henry, Omar Viñole, Thina Curtis, Lafaite Nascimento, Flavio Calazans, Rafael Viana, Ed Oliver e do próprio editor. A capa traz uma ilustração de Nei Lima.
A publicação pode ser baixada gratuitamente aqui. As duas edições anteriores também estão disponíveis no blogue do fanzine, aqui.

Tempos Fantásticos

Quando a ideia é boa, não demora muito para alguém realizar. Há anos venho planejando a publicação de um jornal de fc&f que serviria de plataforma material para o Almanaque da Arte Fantástica Brasileira, mas problemas insolúveis com a projeto comercial empacaram sua efetiva realização. Por isso, fiquei muito animado quando descobri que alguém mais corajoso do que eu meteu a cara e produziu um jornal na mesma proposta.
Trata-se de Tempos Fantásticos, editado por Angelo Dias, que em tudo lembra um jornal tradicional, mas somente com notícias e artigos sobre ficção especulativa.
O jornal foi lançado como um projeto de financiamento coletivo pela Apoia.se, em forma de assinaturas muito acessíveis, que pode ser consultado aqui, onde a primeira edição, de apenas duas páginas, pode ser baixada gratuitamente. Alguns assinantes podem inclusive optar por receber exemplares em papel, o que é muito legal nestes tempos de decadência da imprensa escrita. Todo o sucesso do mundo à iniciativa!

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Resenha: A Bandeira do Elefante e da Arara

A Bandeira do Elefante e da Arara (The elephant and macaw banner), Christopher Kastensmidt. 330 páginas. Tradução de Roberto de Sousa Causo & Christopher Kastensmidt. Editora Devir Livraria, São Paulo, 2016.

Este é mais um dos casos incomuns em que não é possível definir com precisão se estamos diante de uma obra nacional ou estrangeira. Isso porque ambas as origens concorrem neste romance. O autor, Christopher Kastensmidt, é texano e está radicado no Brasil desde 2001. Sua origem norte-americana não é nenhum segredo, mas é preciso que ele o diga para que a gente descubra, porque fala português com fluência perfeita, sem esquecer que compôs praticamente toda sua obra literária em solo tupiniquim. Por outro lado, o texto foi originalmente redigido em inglês e precisou ser traduzido, trabalho brilhantemente desenvolvido pelo escritor Roberto de Sousa Causo, com a supervisão do próprio autor. Isso porque Kastensmidt não se sente suficientemente a vontade com o português para escrever diretamente na Flor do Lácio, que é considerada por muitos linguistas como um dos idiomas mais difíceis do planeta. Mas a pendenga não para aí: o tema do romance não poderia ser mais brasileiro, pois toda a história se passa nas selvas de um Brasil colonial mítico, em que seres fantásticos têm existência real e palpável, para desespero dos colonos portugueses.
O modelo não é inédito, autores nativos já se aventuram por esse tema espinhoso com ótimos resultados, como Ivanir Calado (A mãe do sonho) Simone Saueressig (aurum Domini: O ouro das missões), Felipe Castilho (Ouro, fogo e magabytes), Tabajara Ruas (O fascínio), e o já citado Roberto de Sousa Causo (A sombra dos homens). Contudo, essa não é a regra. Entre os autores brasileiros de fantasia e ficção científica, ainda domina o preconceito em relação a nossa própria cultura e história, bem como dificuldades com a pesquisa, e a insegurança em desrespeitar a tradição folclórica, o que até se justifica em alguns casos. Talvez tenha sido justamente por não ser brasileiro e não compartilhar dessas amarras, que o autor de A Bandeira do Elefante e da Arara ousou embrenhar nesse ambiente difícil.
O resultado é favorável: não há nada a reprovar em A Bandeira do Elefante e da Arara. A história é movimentada e com muita ação, os personagens são redondos e sem cacoetes, os seres mitológicos são fiéis aos originais e há um tratamento responsável e respeitoso com relação a todos os protagonistas e suas origens, sem preconceitos ou estereótipos.
O romance é o que se chama, nos EUA, de fix-up, ou seja, a reunião de textos independentes que formam um todo coerente. Tanto é que os três primeiros capítulos de A Bandeira do Elefante e da Arara, "O encontro fortuito de Gerad van Oost e Oludara", "A batalha temerária contra o capelobo" e "O desconveniente casamento de Oludara e Arani" tiveram anteriormente, de fato, edições independentes na coleção Duplo Fantasia Heroica, publicada pela mesma Devir Livraria, e já comentados aqui.
Kastensmidt explora com habilidade a construção do ambiente selvagem brasileiro. A abertura de cada capitulo apresenta um animal típico de nossa fauna, que também é lembrado no final. Para um brasileiro pode parecer pouco relevante, mas imagino a sensação que as descrições precisas e coloridas causam nos leitores estrangeiros, que nunca viram animais como esses. Não é por acaso que o primeiro capítulo, "O encontro fortuito de Gerad van Oost e Oludara", foi indicado ao prestigioso Prêmio Nebula em 2011.
Nas primeiras histórias, somos apresentados aos protagonistas, Gerad e Oludara, bem como ao seu nêmesis, o bandeirante Antônio Dias Caldas, que vai aparecer em diversos momentos da trama.   Acompanhamos como o aventureiro holandês Gerad conhece o príncipe africano escravizado Oludara e, juntos, fundam a sua bandeira de dois homens, o primeiro encontro com o Saci Pererê, a feroz luta contra o Capelobo, o confronto com o Curupira e seu gigantesco porco do mato, além da tribo dos Tupinambás, a segunda casa dos protagonistas, onde Oludara conhece, se apaixona e casa com a nativa Arani.
Em seguida, temos outras sete noveletas, cujos títulos, além de toda pompa e circunstância, são por si bastante reveladores: "O impropício retorno de Antônio Dias Caldas", "Uma série inconcebível de capturas e calamidades", "Uma tumultuosa convergência de desajustados, monstros e franceses", "A ameaçante aparição da Mula sem Cabeça", "O doloroso nascimento de Tainá", "Um caso audacioso em Olinda" e o impactante "O catastrófico final das façanhas brasileiras de Gerard e Oludara", que fecha o romance com um grande clímax onde não falta destruição, lutas e surpresas que vão colocar em cheque a boa relação entre os heróis. Nessas histórias, vamos também conhecer versões assustadoras dos mitos brasileiros, que não deixam de fora nem mesmo a Cuca e o beligerante Pai do Mato; mas percebe-se que ficaram muitos outros monstros de reserva para o futuro. Por certo que Kastensmidt não contou tudo de propósito. Além das adaptações para os quadrinhos – cujo primeiro volume foi publicado pela Devir Livraria em 2014 –, aguarda-se para breve um jogo de tabuleiro no universo do livro que, tudo indica, ser fato inédito no Brasil. Além de escritor, Kastensmidt é especialista em jogos e o protótipo já está em fase de testes. Mais informações sobre isso podem ser obtidas no saite oficial do romance, aqui.
E, como não podia deixar de ser, A Bandeira do Elefante e da Arara já chamou a atenção de editores pelo mundo. Recentemente, a editora espanhola Sportula licenciou a série para o espanhol, sendo este o sétimo idioma que a Bandeira vai falar: ela já tem traduções para chinês, tcheco, romeno e holandês, além do inglês e o português, é claro.
Por tudo isso é que A Bandeira do Elefante e da Arara é um livro obrigatório não só para os que gostam de boas aventuras, mas também para que autores e editores descubram que não há nada de errado com a mitologia brasileira. Assim como os nomes dos personagens em português, que ainda é tabu para alguns autores brasileiros, a cultura, os cenários, a história e a mitologia nacionais são ambientes ricos e interessantes, que devem e precisam ser melhor aproveitados.
Longa vida a A Bandeira do Elefante e da Arara!

Imaginário! 11

A editora Marca de Fantasia publicou a décima primeira edição da revista acadêmica Imaginário!, editada por Henrique Magalhães, dedicada a discussão da arte das histórias em quadrinhos e outras expressões da cultura pop imagética, através de artigos, ensaios, entrevistas e resenhas de Doutores, Mestres, pós-graduandos e graduandos brasileiros.
A edição tem 191 páginas e traz textos de Heraldo Aparecido Silva, Ivan Carlo Andrade de Oliveira, Fernanda Simplício, Jainara Sabino, Alessandro Fernandes, Leilane Hardoim Simões, Edgar Cézar Nolasco, Jairo Macedo Júnior, Selma Regina Nunes Oliveira, Roberto Elísio dos Santos, Waldomiro Vergueiro, Gazy Andraus, Daniel Baz dos Santos, Guilherme "Smee" Sfredo Miorando e Ana Paula Rodrigues Ferro.
Imaginário! é editada em formato virtual e pode ser baixada gratuitamente aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Conexão Literatura 19

Está circulando a primeira edição de 2017 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A revista tem 46 páginas e destaca o trabalho do autor de bela imagem da capa, o ilustrador Adalberto F. Souza, que é entrevistado pelo editor, assim com também são os escritores Brianna Oliva, Hudson Pereira, Fabio de Jesus e Marcio Muniz. Ainda são publicados contos de Marcelo Garbine e Mírian Santiago, poema de Jack Michel, crônica de Rafael Botter, artigo de Angelo Miranda e notícias por Dione Souto Rosa. A coluna "Conexão Nerd" faz um raio x do personagem dos quadrinhos Homem de Ferro.
A revista é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Resenha: O problema dos três corpos

O problema dos três corpos (三体), Cixin Liu. 316 páginas. Tradução de Leonardo Alves da edição em inglês The three-body problem. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2016.

Histórias de contato estão entre as mais praticadas dentro do gênero da ficção científica. Algumas delas são muito criativas quanto aos problemas inerentes da troca de informação entre raça humana e alienígenas, em que quase sempre o que é dito por um não é bem compreendido pelo outro, gerando muitos desentendimentos. Mas, em algum momento, o diálogo se estabelece e as coisas se acertam. A não ser naqueles casos – bastante frequentes diga se de passagem – em que uma das partes quer destruir a outra. Aí temos uma história de invasão, que também é um tema muito explorado pelo gênero.
Sabe-se que toda a história de invasão ou de contato, remete-se à comunicação entre os próprios seres humanos, em que as barreiras linguísticas, culturais e econômicas geram situações de opressão incontornáveis para a parte tecnologicamente mais fraca do diálogo. E é muito difícil escapar dessa interpretação, mesmo que o autor diga que não se trata de uma metáfora. Inclusive no caso de O problema dos três corpos, romance do escritor chinês Cixin Liu, que ganhou o prêmio Hugo de melhor romance em 2015. O Hugo é o mais importante prêmio da fc internacional, promovido pelo fandom norte-americano e votado durante suas convenções. Foi o primeiro romance de um autor não anglófono a obter o mérito, mas ele não veio por acaso: Cixin Liu já tinha o reconhecimento de seus conterrâneos, visto ter ganhado oito vezes o Galaxy Award, o mais importante prêmio chinês do gênero.
A história se inicia durante os conflitos da Revolução Cultural. As primeiras cenas são chocantes e relatam o assassinato de um acadêmico por seus próprios alunos, diante da filha que assiste a tudo sem poder intervir. Essa estudante, chamada Ye Wenjie, será protagonista de um cabo de guerra entre a humanidade e uma raça alienígena, mas ela ainda não sabe disso. Por hora, é apenas uma jovem solitária e traumatizada, também perseguida pelo governo chinês. Às portas da execução, recebe a oferta de ser poupada em troca de  trabalhar num programa ultra-secreto do governo, cujo objetivo é buscar o contato com alguma civilização extraterrestre.  Ela aceita, apesar de saber que será prisioneira num laboratório remoto, chamado Base da Costa Vermelha, e que talvez nunca mais saia de lá.
Anos depois, em nosso dias, cientistas destacados em suas áreas começam a desaparecer em todo o mundo, causando estagnação no avanço da ciência. Alguns deles chegaram a se suicidar depois de concluir que a ciência é inútil. O pesquisador chinês Wang Miao, especializado em nanotecnologia, é assediado por um grupo de homens de seu governo que pretende recrutá-lo para algo que eles chamam de "guerra", embora não exista nenhuma guerra sendo travada no momento e ninguém fale claramente a respeito.
Entre o grupo está o detetive de polícia Shi Quiang, que passa a ser a sombra de Miao pois desconfia que ele pode ser uma futura vítima. A suspeita recai sobre um  grupo de fiéis de uma religião integralista que se une em torno de um sofisticado jogo de imersão total online chamado "O problema dos três corpos", no qual filósofos do passado da Terra, mas que vivem num mundo que orbita um sistema de três sóis, tentam desenvolver uma teoria que preveja, com exatidão, os drásticos fenômenos climáticos que assolam o planeta, de forma a permitir que a civilização se proteja antecipadamente dos cataclismos mortais que a abatem periodicamente. Nessas circunstâncias, a civilização desaparece e o jogo acaba, para retornar em outro momento da história quando for feito novo login.
Quando Miao passa a enxergar no fundo dos olhos uma aterrorizante contagem regressiva que mais ninguém vê, busca ajuda com uma envelhecida Ye Wenjie, e acaba por se envolver com o estranho jogo. Com a cientista anciã, fica sabendo o que aconteceu na Base da Costa Vermelha, bem como o significado do problema dos três corpos – que ele ajuda a solucionar – e como tudo isso se relaciona com as mortes dos cientistas e a iminente invasão alienígena na Terra.
Cixin Liu é engenheiro, chinês de nascença, e ainda reside na China onde desenvolve uma bem sucedida carreira como escritor de ficção científica, gênero do qual se declara fã desde a juventude.
Diz o autor no posfácio que fecha a edição: "não uso minha ficção como um modo mascarado de criticar a realidade do presente. Acho que o maior atrativo da ficção científica é a criação de diversos mundos imaginários fora da realidade". Contudo, é impossível não ver em O problema dos três corpos uma série de metáforas muito bem assetadas. Sinal de que, como sempre me pareceu correto pensar, as obras têm pretensões próprias que nem sempre são compatíveis com as de seus autores. O leitor experiente também vai perceber uma série de homenagens sutis que o autor faz à importantes obras da ficção científica. Fica a dica para quem quiser se divertir identificando cada uma delas.
O problema dos três corpos funciona muito bem como obra única, mas trata de uma trilogia, cujo título geral em inglês é Remembrance of Earth’s past. Além do primeiro volume, originalmente publicado em 2007, as sequências são The dark forest (2008) e Death's end (2010), e espera-se para 2017 o lançamento de um filme baseado no romance. Tomara que tudo isso também chegue ao Brasil.